Lula: Brasil precisa de choque de inclusão

Publicado 30/04/2006

O deputado Luis Cesar Bueno, participou nos dias 28,29 e 30 de Abril do Encontro Nacional do PT realizado em São Paulo, junto com 25 delegados representando o Estado de Goiás, sendo 08 da Tendência Nacional Movimento PT da qual é dirigente. Nas articulações políticas colaborou com a elaboração de uma proposta de política de alianças ampla para que o PT reeleja o presidente no primeiro turno. Um principal fato do Encontro foi a fala do presidente Lula aos petistas. Veja como foi a conversa de Lula com os delegados presentes no evento: Num discurso contundente e recheado de bom-humor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou o primeiro dia do 13º Encontro Nacional do PT ovacionado pelos cerca de 1.500 petistas que lotaram a quadra do Sindicato dos Bancários, no Centro de São Paulo, onde acontece o evento. Durante 1 hora e 10 minutos, Lula arriscou brincadeiras em espanhol – aproveitando a presença de 16 delegações estrangeiras –, detalhou os avanços de seu governo em diversas áreas, fez duras críticas à oposição e cobrou “maturidade” do PT para a disputa política deste ano. “O PT precisa se preparar para um enfrentamento bravo. Os adversários vão ser conosco muito mais duros do que nós fomos com eles”, afirmou. Segundo Lula, o comportamento do PSDB e do PFL significa que não haverá limites no embate eleitoral. “Estão dizendo: vale tudo”, condenou. Para o presidente, a “saraivada de tiros” que ele, o governo e o PT enfrentam há um ano foi motivada pelo sucesso de sua administração. “Nossos adversários tinham a convicção de que nós não iríamos dar conta do recado e que o Brasil estaria quebrado no primeiro ano de governo”, lembrou. Quando as coisas começaram a dar certo, disse Lula, a oposição decidiu ir “para cima” do governo. Segundo ele, as CPIs dos Correios e dos Bingos – que classificou de “duas coisas fantásticas” – tiveram o único objetivo de atacar o PT. “Porque eles sabem que, na disputa democrática, não nos derrotarão”. Os adversários, disse o presidente, andam tão irritados que querem até proibir a Petrobras de anunciar a auto-suficiência brasileira em petróleo. “Isso é porque não sabem o sucesso que vai ser o biodiesel…”, provocou. Segundo Lula, o Brasil vai se transformar na maior matriz de bioenergia do mundo no curto espaço de tempo. “Não está longe o dia em que não precisaremos mais falar a palavra prospectar petróleo. Nós vamos plantar petróleo”. Modismo O presidente aproveitou para ironizar o discurso que a direita já ensaia para as eleições deste ano. “Eles não querem debater o econômico e o social. O que resta para eles? Viagem espacial? Fomos nós. Auto-suficiência de petróleo? Fomos nós… O que restará para eles? O que vamos debater? Já sei: choque de gestão!” Para Lula, a expressão, que vem sido repetida pelo pré-candidato tucano à presidência, Geraldo Alckmin, não passa de modismo eleitoral. “Eu lembro que, em 1994, a moda era falar em química fina, novos materiais, fibra ótica. Tinha que falar isso em todo discurso. Muita gente nem sabia o que era”, comparou, arrancando risos da platéia. Segundo o presidente, por trás do discurso do “choque de gestão” está o corte nos investimentos sociais, o fim dos aumentos reais para o salário mínimo e a redução dos benefícios previdenciários. E arrematou: “O Brasil precisa é de choque de inclusão social, de política pública para cuidar do povo pobre desse país”. Corinthians x Íbis Lula disse estar preparado política, física e psicologicamente para percorrer o Brasil anunciando os muitos avanços de seu governo. “Tudo o que eu quero na vida é fazer comparação”, afirmou. Ele ressaltou, porém, que não quer comparar só com o governo passado. “Seria como comparar o Corinthians ao Íbis”, alfinetou, relacionando FHC à equipe pernambucana que, há alguns anos, ganhou o título de pior time do mundo. Depois completou: “Quero comparar com a História republicana do país”. O presidente lembrou que nunca os trabalhadores estiverem tão próximos do poder, citando o diálogo permanente com os movimentos sociais, as políticas para mulheres, negros e índios e os ganhos salariais. “Passei grande parte da vida fazendo greve e voltando ao trabalho sem nada além da reposição da inflação. Agora, em 24 meses, 90% dos acordos tiveram ganhos reais nos salários”, disse. Na seqüência, falou dos 39 meses de saldo positivo na geração de empregos. “Criamos 4 milhões de vagas com carteira assinada, sem contar setor público e agricultura familiar”. Expectativas O crescimento econômico com inflação baixa, bem com os recordes das exportações com fortalecimento do mercado interno, são feitos que, lembrou o presidente, nunca existiram no país. Falando sobre as fortes cobranças em torno da política econômica, Lula ponderou que elas se assentam nas enormes expectativas “construídas a vida inteira”. Mas ponderou que, nessas horas, é preciso ter paciência – ressaltando os méritos do ex-ministro Antonio Palocci nesse sentido. “Leva anos e anos para cercar as coisas, fazer as coisas engatarem entre si”, disse. Outra vez Lula levou a platéia às gargalhadas quando lembrou das discussões em torno do programa econômica na campanha de 2002. De acordo com ele, as análises eram tão pessimistas que se chegava à conclusão de que o Brasil não teria solução. “Então eu pensava: se o Brasil acabou, para que eu quero ser presidente?” Usando suas habituais metáforas, o presidente comparou a recuperação da economia à construção de uma laje, em que as escoras de madeira só podem ser retiradas após 30 dias. Antes disso, o cimento ainda não maturou e a estrutura pode desabar. “O Brasil estava tão frágil, que era preciso maturar”, emendou. Agora, de acordo com ele, a situação é outra. “Hoje digo sem medo de errar a qualquer economista, a qualquer crítico de direita ou de esquerda: precisamos preparar um caminha sem volta, que não tenha retorno”. Crise e imprensa Lula condenou a violência com que a direita, a elite e a imprensa têm atacado o PT e o governo. “Nem bem começou a crise, já tinha uma penca de livros dizendo que o PT ia acabar. É impressionante. Eu acho que eles escreveram antes de eu ganhar as eleições…”, ironizou. No meio do discurso, citou José Dirceu, presente ao Encontro. A platéia aplaudiu de pé o ex-ministro. Também houve muitos aplausos a José Genoino – que não estava presente -, quando Lula o mencionou. “Precisamos estar preparados para reconhecer que erramos, mas não podemos aceitar que os adversários sejam os julgadores do PT”, afirmou, lembrando que a história brasileira está repleta de injustiças contra pessoas que foram condenadas publicamente sem provas. Disse ainda que “parte da imprensa” sabe que ela não tem sido democrática. Mas adiantou: “Não vou mandar carta para dono de jornal, não vou mandar carta para dono televisão, não vou mandar carta para dono de revista. Tenho certeza de que o julgamento disso tudo se dará pela compreensão e pela maturidade política que o povo brasileiro está adquirindo nessa crise”. O presidente disse que durante toda a vida sofreu “páginas e mais páginas” de preconceito, reconhecendo, porém, que não se trata de algo pessoal. “Sei o que uma parte muito pequena da elite brasileira faz com aqueles que ocupam postos que eles achavam que eram só deles”, avaliou. Igual preconceito, exemplificou, sofreram Olívio Dutra no Rio Grande do Sul, José Fritsch em Santa Catarina e Luiza Erundina e Marta Suplicy em São Paulo. “Mas me quedarei tranqüilo, mui tranqüilo”, brincou. Política externaM A guinada da América Latina para a esquerda – em especial na parte Sul do Continente – deve, de acordo com Lula, servir de antídoto para os que têm dúvidas e inquietações quanto ao que se passa no Brasil. “O Continente hoje tem um perfil político que não conheceu no século 20”, frisou, enaltecendo a integração regional e o importante papel do Brasil nesse contexto, com uma política externa soberana, respeitosa e leal. “Precisamos ter solidariedade e gestos para ajudar os países mais pobres. O Brasil não pode ser um país rico cercado de países pobres”. Ele lembrou do encontro desta semana com os presidentes da Argentina, Néstor Kirchner, e da Venezuela, Hugo Chávez, que classificou como estratégico dentro dessa política. “Nós não podemos errar. Se tem um lugar no mundo com experiência de golpe, é na América Latina. Democracia, para nós, não é uma coisa menor; é uma coisa superior”. PT Sobraram também cobranças ao PT e alguns de seus dirigentes e militantes. “Em muitos lugares deste país, muitos companheiros do PT preferiram criticar o governo federal e a política econômica, sem fazer oposição aos adversários locais”, reclamou. Na mesma linha, disse que não irá se declarar candidato enquanto o partido não tiver “maturidade” para discutir a fundo a questão das alianças. “Nossa correlação de forças é frágil”, afirmou, referindo-se ao fato de o PT não ter maioria no Congresso. Por isso, para o sucesso do segundo mandato, seria preciso uma política de alianças consistente e condizente com o “momento histórico”. “Temos de saber o que interessa para nós, se é que nós temos um projeto nacional. O discurso para mim é um; para a base, é outro. Eu tenho que ter certeza se o que vocês estão falando de projeto nacional é verdade ou não”, questionou. Ele afirmou ainda que não há mais espaço para o medo, a dúvida e a vacilação. “Temos que saber quem são nos inimigos. Vamos botar a mão na consciência e partir para a disputa política”. Segundo o presidente, é preciso abrir mão dos interesses meramente individuais e pensar no coletivo. “Nós não representamos nós. Não estou na política por mim. Estou por aqueles que não tiveram a mesma chance que eu tive, e que ainda são maioria no país”. Lula finalizou afirmando que somente a unidade do partido em torno dessas questões possibilitará a vitória do projeto petista de nação. E mandou um recado à oposição: “Se tivermos o PT unido com os partidos de esquerda e a sensibilidade de detectar na sociedade quem são nossos aliados, que venham! Porque estaremos prontos para rechaçá-los!”, conclui.

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