Bolsonaro e as eleições de 2018

Publicado 04/12/2018

Foto: Reprodução

 

Em recente entrevista a revista digital “Rede Brasil Atual – Revista do Brasil” o psicanalista e professor titular da USP Christian Dunker analisou a relação entre a eleição de Bolsonaro e ascensão do perigo fascista sobre o brasileiro médio. Dunker explica de que maneira o  discurso simplista que elegeu o candidato, que apresenta “um grande inimigo” que deve ser combatido, acaba ressaltando “o pior lado” de pessoas que muitas vezes se opõem ao fascismo, e, que, acabam por fortalecer atitudes violentas e perigosas contra a liberdade.

Para explicar de que maneira esse discurso alimenta tal resultado o professor e psicanalista retoma as manifestações de 2013 que culminaram com o impeachment da presidenta Dilma Roussef.

Quando aflora uma  grande insatisfação coletiva contrária as instituições governamentais até então vigentes, alimentada por um ideal “contra corrupção”  e que acabou sendo mal administrada e direcionada toda a um partido, de uma maneira maniqueísta e infantil.

Essa insatisfação aumenta progressivamente e em 2016 é capitalizada em um processo de injustiças e indignações para os dois lados. De acordo com Dunker, neste momento, tinha-se de um lado aqueles contrários ao afastamento da presidenta Dilma, e do outro aqueles consternados e indignados com os escândalos de corrupção trazidos pela operação Lava Jato e que vincularam o governo aos empresários de uma forma “crônica e indiscriminada”.

Nesse sentido, o psicanalista afirma que “Esse ódio evoluiu da raiva que a gente tem por alguém que faz alguma coisa errada – e que, portanto, poderia pedir desculpas, prometer não fazer de novo […]” tendo-se ainda neste momento a possibilidade das relações  serem reconciliadas, no entanto, conforme o ativismo digital foi degringolando nos discursos de ódios irreais revestidos de ignorância e que encantaram o brasileiro médio, o discurso começa a falar mais alto, orienta-se para fora do indivíduo e conquista as massas.

Dessa maneira aqueles que se opõem a esse discurso acabam sendo odiados não pela oposição argumentativa que perfazem mas sim pelo o que a pessoa é. Então, ao longo de dois anos, o professor e psicanalista afirma que, “aqueles que podiam fazer uma espécie de contrabalanço para o avanço do discurso de ódio foram retiradas das conversas, excluídas e intimidadas no WhatsApp, o Facebook, nas conversas de trabalho, na sala de aula, etc.”

Como resultado as instâncias que poderiam fazer a intermediação de conflitos como imprensa, artistas, a própria psicanálise, a arte, foram afastadas do discurso, silenciadas e ameaçadas o que, de acordo com o Dunker, “redunda numa situação de violência gerada que é autorizada por esse tipo de discurso. Isso gera a opressão capilar dos chefes sobre os empregados, dos homens sobre as mulheres, dos brancos sobre os negros, dos ricos sobre os pobres, ou seja, fortalece as opressões sobre as relações de assimetria que já existem dentro da população brasileira.

O psicanalista e professor afirma ainda que durante esse processo todo, “de retirada, de demissão, da falta de autocrítica e implicação, fomos muito lenientes com a degradação da palavra. Inclusive de certos ideólogos, como Olavo de Carvalho e Rodrigo Constantino, que foram incitando e organizando o ódio contrário às minorias, àqueles que já estão oprimidos”. Nem todos os eleitores de Bolsonaro são fascistas, mas acabam por reproduzir falas de cunho fascista, aceitando de bom grado, por exemplo, abominações como a tortura. O futuro do Brasil é incerto e sombrio.

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