﻿{"id":25208,"date":"2001-05-24T00:00:00","date_gmt":"2001-05-24T03:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/da-senzala-a-universidade\/"},"modified":"2001-05-24T00:00:00","modified_gmt":"2001-05-24T03:00:00","slug":"da-senzala-a-universidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/da-senzala-a-universidade\/","title":{"rendered":"Da senzala \u00e0 universidade"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;O Estado brasileiro possui uma d&iacute;vida hist&oacute;rica e impag&aacute;vel com a ra&ccedil;a negra de origem africana. Subtra&iacute;dos do seu continente, essa gente foi a base econ&ocirc;mica propulsora do processo de explora&ccedil;&atilde;o do Brasil entre os s&eacute;culos 16 e 19. Escravizados e humilhados, estiveram exclu&iacute;dos de qualquer dignidade durante o per&iacute;odo colonial. No ciclo da economia a&ccedil;ucareira, era necess&aacute;rio que os negros, em grande n&uacute;mero, fossem escravos. Tudo o exigia: a seguran&ccedil;a do colono, a atividade do cultivo, os interesses do tesouro p&uacute;blico, do com&eacute;rcio e da fazenda. Com a decad&ecirc;ncia do sistema produtivo da cana-de-a&ccedil;&uacute;car e a vig&ecirc;ncia do ciclo da minera&ccedil;&atilde;o, as rebeli&otilde;es de escravos, negros e africanos amea&ccedil;avam a pr&oacute;pria sobreviv&ecirc;ncia da elite branca (numericamente inferior), justificando, assim, a expressiva viol&ecirc;ncia contra a forma&ccedil;&atilde;o dos quilombos dirigidos pelo l&iacute;der Zumbi dos Palmares.<\/p>\n<p>O Brasil possu&iacute;a o maior n&uacute;mero de negros vindos da &Aacute;frica, superando, inclusive, os Estados Unidos. No final do s&eacute;culo 18, 68 por cento dos domic&iacute;lios possu&iacute;am pelo menos um africano escravizado. J&aacute; em 1998, 42 por cento da popula&ccedil;&atilde;o brasileira possu&iacute;a um telefone convencional em suas resid&ecirc;ncias. Significa dizer que, no per&iacute;odo colonial, era comum cada fam&iacute;lia possuir um escravo, tanto quanto cada domic&iacute;lio possui um telefone nos dias de hoje.   Nesse mesmo per&iacute;odo, a Inglaterra orientava suas col&ocirc;nias a romperem com a escravid&atilde;o. Os conflitos eclodiam com as independ&ecirc;ncias das 13 col&ocirc;nias da Am&eacute;rica do Norte e, posteriormente, com a Guerra de Secess&atilde;o (1861-1865). No Haiti e em Santo Domingo, os negros conquistaram o poder e a liberdade. Tornaram-se uma elite mulata e revolucion&aacute;ria, que distribu&iacute;a lotes de terras entre os camponeses. Jean-Jacques Dessalines, antigo escravo e l&iacute;der da rebeli&atilde;o haitiana argumentava: &quot;Qual a heran&ccedil;a que os filhos dos brancos reclamam? Os negros, cujos pais est&atilde;o na &Aacute;frica, n&atilde;o ter&atilde;o nada?&quot;.   Enquanto a Inglaterra fazia uma pol&iacute;tica para transformar os escravos em assalariados e consumidores de seus produtos manufaturados, o Brasil n&atilde;o conseguiu estabelecer a inser&ccedil;&atilde;o do negro, &quot;rec&eacute;m-liberto&quot; nas institui&ccedil;&otilde;es sociais. Apesar da Lei &Aacute;urea, a propriedade era exclusividade dos brancos, e o trabalhos, nos centros urbanos e nas lavouras de caf&eacute;, eram preferencialmente dirigidas aos colonos imigrantes da Europa. O Brasil demorou a adequar a metodologia do capitalismo &agrave; sua estrutura econ&ocirc;mica e social.<\/p>\n<p>Os negros ficaram fora do mercado de trabalho e do processo de gera&ccedil;&atilde;o de emprego e renda.   Cotas em Goi&aacute;s &#8211; &Eacute; necess&aacute;ria uma abordagem hist&oacute;rica sobre as origens dos negros no Brasil e na Am&eacute;rica para implementarmos o debate acerca da realidade social do negro. Apresentei recentemente, na Assembl&eacute;ia Legislativa, projeto de lei instituindo cotas &eacute;tnicas no ensino superior p&uacute;blico do Estado de Goi&aacute;s (UEG) para negros.   Posteriormente, ap&oacute;s v&aacute;rias emendas dos deputados, estabeleceu-se o &iacute;ndice de 10 por cento, abrangendo, al&eacute;m dos cidad&atilde;os negros, os pardos e ind&iacute;genas. Na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 40 por centro; nas universidades federais da Bahia e do Rio Grande do Sul, 20 por cento.   Em Goi&aacute;s, apesar de amparado na Comiss&atilde;o de Constitui&ccedil;&atilde;o, Justi&ccedil;a e Reda&ccedil;&atilde;o e na Comiss&atilde;o de Educa&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m da aprova&ccedil;&atilde;o em tr&ecirc;s vota&ccedil;&otilde;es, por unanimidade, no plen&aacute;rio da Assembl&eacute;ia Legislativa, a lei foi vetada pelo governador, contrariando as posi&ccedil;&otilde;es das entidades do movimento negro e as posi&ccedil;&otilde;es defendidas pela diplomacia brasileira na Confer&ecirc;ncia Mundial de Combate ao Racismo, ocorrida em Durban, na &Aacute;frica do Sul, em 2001. A posi&ccedil;&atilde;o do governo de Goi&aacute;s foi tamb&eacute;m oposta a de alguns minist&eacute;rios do governo Fernando Henrique; entre eles o dirigido pelo ministro Raul Jungmann, que estabeleceu o percentual de 20 por cento dos cargos em provimento por concurso p&uacute;blico para negros.   Durante o debate do projeto, percebi que o tema &eacute; ainda mais pol&ecirc;mico do que aparenta ser. Jamais imaginei a presen&ccedil;a do racismo de forma veemente e impl&iacute;cita. O racismo existe, e podemos perceb&ecirc;-lo nas rela&ccedil;&otilde;es de trabalho, nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, no aparelho de Estado e at&eacute; mesmo entre os pr&oacute;prios negros. Quando interrogamos sobre sua situa&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o social, alguns afros-descendentes preferem o sil&ecirc;ncio ao debate, o que mostra uma dolorida lacuna hist&oacute;rica, sem direito a qualquer repara&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica ou psicol&oacute;gica, por parte do Estado, para conviver com o problema.   Na verdade, a mis&eacute;ria e a pobreza no Brasil t&ecirc;m cor.<\/p>\n<p>Basta analisar os n&uacute;meros da exclus&atilde;o social: apenas 1,9 por centro dos diplomas de curso superior expedidos no Brasil s&atilde;o entregues a negros; para cada mil crian&ccedil;as menores de 5 anos que morrem, 62,3 por cento s&atilde;o afros-descendentes, contra 37,3 por cento de brancos. Esses dados, fornecidos pelo IBGE, nos mostram a cor da pobreza em outras &aacute;reas. A m&eacute;dia da renda domiciliar per capita do brasileiro, em 2001, foi de 481 reais 60 centavos para a popula&ccedil;&atilde;o branca, contra 205 reais 40 centavos para a popula&ccedil;&atilde;o afro-descendente. Tamb&eacute;m se divulgou que, entre os indigentes, 8,6 por cento eram brancos e 21,6 por cento, afros-descendentes.   Em 1992, essa mesma propor&ccedil;&atilde;o de desigualdade &eacute; constatada quando analisamos os domic&iacute;lios particulares urbanos sem &aacute;gua tratada: 10,9 por cento de resid&ecirc;ncias tinham chefes de fam&iacute;lia brancos, e 26,4 por cento, afro-descendentes. A disparidade social entre negros e brancos &eacute; tamb&eacute;m constatada nas estat&iacute;sticas de pessoas que moram em domic&iacute;lios que n&atilde;o possu&iacute;am geladeira: 17,2 por cento eram de pessoas bracas e 44,37 por cento de afro-descendentes. Quanto &agrave;s pessoas que moram em domic&iacute;lios que n&atilde;o possu&iacute;am telefone, o IBGE demonstra, claramente, em 2001, o desfavorecimento relacionado aos negros: 39,7 por cento de brancos contra 62,11 por cento de afros-descendentes.   Percebemos, portanto, que a exclus&atilde;o do negro n&atilde;o acontece somente nas universidades. A pobreza e a indig&ecirc;ncia tamb&eacute;m s&atilde;o consequ&ecirc;ncias sociais que atingem um maior &iacute;ndice entre os afro-descendentes. Em 2001, 33,6 por cento da popula&ccedil;&atilde;o brasileira vivia em fam&iacute;lias com renda inferior &agrave; linha de pobreza, e 14,6 por cento em fam&iacute;lias com renda inferior &agrave; linha da indig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Os n&uacute;meros de mostram a distribui&ccedil;&atilde;o da mis&eacute;ria no Brasil, por onde podemos afirmar que o pobre branco sofre muito, mas o pobre negro e afro-descendente sofre muito mais.   Projeto Nacional &#8211; As pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de combate &agrave; pobreza devem ser precedidas de uma ampla campanha de combate &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o social do negro. O Estado precisa investir em pol&iacute;ticas afirmativas para estabelecer a real democracia social, com respeito &agrave;s etnias para garantir qualidade de vida. Somente com a&ccedil;&otilde;es de governo afirmativas &eacute; que a maioria da popula&ccedil;&atilde;o ter&aacute; verdadeiramente inclus&atilde;o social.   Pol&iacute;ticas afirmativas n&atilde;o &eacute; novidade dentro do contexto da discuss&atilde;o sobre igualdade racial. Entre 1965 e 1968, os negros norte-americanos revoltaram-se contra o governo reivindicando melhores condi&ccedil;&otilde;es de vida. Nesta &eacute;poca, a maioria da popula&ccedil;&atilde;o negra permanecia desempregada e com o agravante de ser formada por trabalhadores sem especializa&ccedil;&atilde;o. Problema grave. Co o processo de automatiza&ccedil;&atilde;o do setor produtivo, o trabalhador n&atilde;o-especializado era sempre o primeiro a ser despedido. Nessa &eacute;poca, o Congresso aprovou a emenda constitucional sobre a igualdade dos direitos. As pol&iacute;ticas afirmativas, incluindo cotas nas universidades, constavam nesse pacote de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas exigido pelo pastor Martim Luther King e por todo o movimento negro.   Determinar um porcentual dos cursos nas universidades para negros pobres que conseguirem atingir a m&eacute;dia suficiente para ser aprovado no vestibular &eacute; uma medida necess&aacute;ria para estabelecer a democracia e a igualdade social. Entendemos que, a exemplo dos EUA, do Canad&aacute;, Inglaterra e Holanda, ser&aacute; uma medida provis&oacute;ria, tempor&aacute;ria, com prazo determinado. Quando as pol&iacute;ticas afirmativas a presentarem resultados concretos, atrav&eacute;s de a&ccedil;&otilde;es sociais que tirem os afro-descendentes do submundo da sociedade, os resultados aparecer&atilde;o em todos os setores, inclusive na universidade.<\/p>\n<p>Com o tempo, as cotas n&atilde;o ser&atilde;o mais necess&aacute;rias, pois a presen&ccedil;a do negro nos cursos superiores ser&aacute; uma realidade.   O Estado tem que fazer sua parte e contribuir com mais essa necessidade social. N&atilde;o podemos conviver com a dura realidade de entrar em uma sala de aula de cursos como medicina, direito, farm&aacute;cia, jornalismo, publicidade&#8230; para n&atilde;o dizer todos, e quase n&atilde;o ter a presen&ccedil;a, que seja, de um aluno negro. Na maioria das vezes, essa presen&ccedil;a &eacute; inexistente. Democracia racial e inclus&atilde;o social n&atilde;o s&atilde;o representadas dessa forma.   Tramita no Congresso Nacional um projeto de lei do senador Jos&eacute; Sarney, j&aacute; aprovado no Senado e na Comiss&atilde;o de Constitui&ccedil;&atilde;o e Justi&ccedil;a da C&acirc;mara dos Deputados, propondo pol&iacute;ticas afirmativas com cotas nas Universidades &#8211; 20 por cento em todas as universidades p&uacute;blicas e privadas do pa&iacute;s. Acredito que logo no in&iacute;cio dos trabalhos legislativos, esse projeto ser&aacute; aprovado gra&ccedil;as ao alto grau de compromisso social dos atuais congressistas com os negros. Tenho certeza que o presidente Lula, pela sua origem e pelo seu programa de governo, sancionar&aacute; o projeto do senador maranhense, estendendo &#8212; para mercado de trabalho e para a especializa&ccedil;&atilde;o profissional.   Luis Cesar Bueno professor, deputado estadual e membro da executiva regional do PT, &eacute; autor do projeto que estabelece cotas para negros na UEG.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;O Estado brasileiro possui uma d&iacute;vida hist&oacute;rica e impag&aacute;vel com a ra&ccedil;a negra de origem africana. 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