﻿{"id":23499,"date":"1999-12-03T00:00:00","date_gmt":"1999-12-03T02:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/por-uma-democracia-republicana\/"},"modified":"1999-12-03T00:00:00","modified_gmt":"1999-12-03T02:00:00","slug":"por-uma-democracia-republicana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/por-uma-democracia-republicana\/","title":{"rendered":"Por uma Democracia Republicana"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;As sombras de um passado remoto, j&aacute; estudado por v&aacute;rios pesquisadores, um passado colonial, mon&aacute;rquico, escravista e patriarcal, se estendem at&eacute; o presente e amea&ccedil;am o nosso futuro. Desde o in&iacute;cio da coloniza&ccedil;&atilde;o, o Brasil tem sido prisioneiro de uma tradi&ccedil;&atilde;o conservadora, um modo estatal de constitui&ccedil;&atilde;o da economia, uma forma autorit&aacute;ria de gest&atilde;o pol&iacute;tica e administrativa, uma pol&iacute;tica institu&iacute;da para proteger os poderosos e reprimir os fracos e um m&eacute;todo de afirma&ccedil;&atilde;o da sociedade no qual a aristocratiza&ccedil;&atilde;o e a exclus&atilde;o social s&atilde;o faces da mesma moeda.   A monarquia patrimonial portuguesa imp&ocirc;s ao Brasil um regime econ&ocirc;mico escravista e institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e administrativas estranhas e opressoras. Durante o per&iacute;odo colonial, os movimentos pol&iacute;ticos de car&aacute;ter popular, em geral, n&atilde;o foram suficientemente fortes para derrotar as manobras dos advers&aacute;rios visando isola-los. N&atilde;o foram tamb&eacute;m suficientemente consistentes para evitar que fossem cooptados. Em ambos os casos, para se tornarem vitoriosos, imprimiam aos momentos de mudan&ccedil;a a marca de sua radicalidade. Este ali&aacute;s &eacute; um tra&ccedil;o marcante de nossa hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>&nbsp;A independ&ecirc;ncia, obra quase exclusivamente da elite governante, substituiu a depend&ecirc;ncia de Portugal pela da Inglaterra. A aboli&ccedil;&atilde;o, resultado principalmente da press&atilde;o internacional que submeteu o governo mon&aacute;rquico, em que pese o papel das lutas de negros e setores liberais internos, manteve as terras nas m&atilde;os dos mesmos senhores. A proclama&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica, golpe militar assistido por uma massa popular quase indiferente, instituiu uma ditadura armada. Da col&ocirc;nia &agrave; rep&uacute;blica passando pelo imp&eacute;rio, as transforma&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas n&atilde;o tiveram, em geral, um sentido republicano voltado para a constitui&ccedil;&atilde;o do car&aacute;ter p&uacute;blico das institui&ccedil;&otilde;es e um ordenamento social e econ&ocirc;mico justo e eq&uuml;itativo. A rigor, a nossa evolu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica &eacute; marcada por um conte&uacute;do autorit&aacute;rio e anti-republicano.   Fi&eacute;is ao lema &quot;fa&ccedil;amos a revolu&ccedil;&atilde;o antes que o povo fa&ccedil;a&quot;, as elites estamentais mantiveram seus privil&eacute;gios, nas &eacute;pocas cr&iacute;ticas para sua domina&ccedil;&atilde;o, por meio de transforma&ccedil;&atilde;o pelo alto, a partir do pr&oacute;prio Estado. Frustrando a participa&ccedil;&atilde;o popular independente. Assim, na estrada do s&eacute;culo XIX, metade da popula&ccedil;&atilde;o era de miser&aacute;veis, quase toda a outra metade era escravos, s&oacute; uma minoria reduzida de escravocratas formava os ricos.<\/p>\n<p>&nbsp;A exclus&atilde;o social e pol&iacute;tica, tamb&eacute;m marca do imp&eacute;rio, adentrou a Rep&uacute;blica e o s&eacute;culo XX.   Ainda no final do s&eacute;culo passado, o Brasil n&atilde;o conhecia o trabalho livre nem a livre iniciativa econ&ocirc;mica nem uma ind&uacute;stria privada orientada pela competi&ccedil;&atilde;o. O capitalismo que se solidifica nas principais na&ccedil;&otilde;es desde o s&eacute;culo XVIII n&atilde;o havia ainda penetrado nas estruturas do Brasil em pleno in&iacute;cio do s&eacute;culo XX. Nos anos 30 deste s&eacute;culo sequer existia aqui um mercado nacional digno do nome. Desde os tempos coloniais, a economia foi orientada pelo Estado para atender aos interesses de oligarquias patrimoniais. Foi sob os ausp&iacute;cios e controle do Estado portugu&ecirc;s que se explorou o pau-brasil, que floresceram as monoculturas c&iacute;clicas do a&ccedil;&uacute;car, do tabaco, do algod&atilde;o e do cacau e que se orientou a explora&ccedil;&atilde;o do ouro, da prata e das pedras preciosas.   Era o dom&iacute;nio de uma elite formada pela alian&ccedil;a entre os grandes senhores de terras e um estado burocr&aacute;tico civil e militar, combinando a produ&ccedil;&atilde;o monocultora com os interesses comerciais e fiscais da Metr&oacute;pole. Os interesses fiscais e mercantis sempre predominaram sobre o interesse social e sobre as atividades produtivas independentes.<\/p>\n<p>&nbsp;A lei do &quot;quero-e-mando&quot; dos funcion&aacute;rios da coroa, dos governadores de prov&iacute;ncias e dos grandes senhores, sempre a prevalecer sobre qualquer tra&ccedil;o de justi&ccedil;a igualit&aacute;ria. As institui&ccedil;&otilde;es administrativas, na col&ocirc;nia como imp&eacute;rio, eram reduzidas &agrave;s fun&ccedil;&otilde;es de controle e arrecada&ccedil;&atilde;o fiscal, jamais as atividades voltadas para o bem-estar da sociedade.   Submetendo &agrave; independ&ecirc;ncia comercial e financeira da Inglaterra, o imp&eacute;rio herdou o modo de opera&ccedil;&atilde;o da velha matriz lusitana. Com a Rep&uacute;blica veio a pol&iacute;tica dos governadores, das oligarquias regionais que mantiveram o Estado como instrumento de privil&eacute;gios. Os &oacute;rg&atilde;os legislativos, sejam as c&acirc;maras municipais da col&ocirc;nia, sejam o parlamento imperial, seja o Congresso Nacional da &quot;Nova Rep&uacute;blica&quot;, jamais tiveram o car&aacute;ter de institui&ccedil;&otilde;es representativas do povo. Funcionaram como nichos de articula&ccedil;&otilde;es de interesses dos poderosos e casas de subservi&ecirc;ncia aos executivos. A pr&oacute;pria Constitui&ccedil;&atilde;o Republicana de 1891 foi c&oacute;pia da mal feita e inadequada constitui&ccedil;&atilde;o norte-americana. Os partidos pol&iacute;ticos da Rep&uacute;blica velha n&atilde;o passaram de congrega&ccedil;&otilde;es facciosas destinadas a dar sustenta&ccedil;&atilde;o ao governo e a ordenar minimamente as disputas de poder entre as elites para definir quem levaria a parte maior no motim dos recursos p&uacute;blicos.<\/p>\n<p>&nbsp;Jamais se constitu&iacute;ram como aut&ecirc;nticos partidos, organizadores ou representantes pol&iacute;ticos de interesses sociais. Quanto &agrave; justi&ccedil;a, n&atilde;o passava de simulacro.   Se nos Estados predominava o poder das oligarquias locais, o governo federal se transformou no espa&ccedil;o dos acordos intra-elites. A cultura do caf&eacute; que implicou numa mudan&ccedil;a da velha forma escravista de cultivo da grande lavoura n&atilde;o propiciou o desenvolvimento de uma economia livre e competitiva. Ao contr&aacute;rio, inaugurou uma nova pr&aacute;tica que subsiste at&eacute; hoje na rela&ccedil;&atilde;o entre Estado e elites econ&ocirc;micas: a privatiza&ccedil;&atilde;o dos lucros e a socializa&ccedil;&atilde;o dos preju&iacute;zos. Desde ent&atilde;o os interesses das elites econ&ocirc;micas passaram a ser confundidos com os chamados &quot;interesses nacionais&quot;.   O peso dessa tradi&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica secular foi determinante para a via e o car&aacute;ter da moderniza&ccedil;&atilde;o capitalista do Brasil que sofre agora um corte grotesco, com a pol&iacute;tica desenvolvida por FHC, rompendo com o crescimento econ&ocirc;mico, com a gera&ccedil;&atilde;o de empregos, desvalorizando o produto nacional e os servi&ccedil;os p&uacute;blicos e entregando a soberania nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;Em plena &quot;Revolu&ccedil;&atilde;o T&eacute;cno-Cient&iacute;fica&quot; em curso, onde alguns cientistas tamb&eacute;m a denominam de revolu&ccedil;&atilde;o do conhecimento, FHC entrega o Pa&iacute;s ao capital estrangeiro, fazendo a pol&iacute;tica das elites, que ele enquanto professor de sociologia na USP tanto combateu.   Este texto &eacute; contribui&ccedil;&atilde;o da tend&ecirc;ncia Democracia Radical para o congresso nacional do PT.   Luis Cesar Bueno &eacute; professor e historiador, vereador em Goi&acirc;nia e membro do Diret&oacute;rio Nacional do PT.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;As sombras de um passado remoto, j&aacute; estudado por v&aacute;rios pesquisadores, um passado colonial, mon&aacute;rquico, escravista e patriarcal, se estendem at&eacute; o presente e amea&ccedil;am [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":23500,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[59],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23499"}],"collection":[{"href":"https:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23499"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23499\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23500"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/luiscesarbueno.com.br\/lcb\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}