Referência da oposição na Assembleia Legislativa, deputado petista fala em nova Constituinte e acredita que o País precisa ser passado a limpo — mas, para isso, terá de resolver o maior escândalo do governo Lula e aprofundar na CPI do Cachoeira

Publicado 22/04/2012

 Luis Cesar Bueno é uma das vozes mais ativas da oposição ao governo estadual.  Ex-vereador por duas legislaturas (de 1997 a 2003) e no exercício de seu terceiro mandato como deputado estadual, o professor de História licenciado mostra combatividade na Assembleia ao governo Marconi Perillo e acredita que os desencadeamentos da Operação Monte Carlo estão ainda na fase inicial. “Tem muito a ser descoberto.”

Na entrevista ao Jornal Opção, o petista revela um posicionamento geralmente pouco comum entre seus correligionários: a vontade de ver o escândalo do mensalão — maior trauma político do governo Lula — rapidamente julgado: “É preciso passar o Brasil a limpo, doa a que doer, atinja ou não o meu partido.” Nesse aspecto, o parlamentar considera que José Dirceu — acusado pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, de ser “chefe de quadrilha” —, um dos réus do processo, precisa passar pelo julgamento da corte suprema. Mas, para renovar a Nação, o petista pede mais do que isso: quer uma nova Assembleia Nacional Constituinte.

Sobre o envolvimento da construtora Delta no caso Cachoeira, Luis Cesar tenta pontuar a diferença entre os contratos da empresa com prefeituras da aliança PT-PMDB — que ocorre em Goiânia, Aparecida, Anápolis e Catalão — e o relacionamento dela com o governo do Estado: enquanto considera que os processos licitatórios se deram de forma regular com os municípios, vê um envolvimento suspeito de seus dirigentes com operações na segurança pública e em outras estruturas do poder público em Goiás.

Euler de França Belém — Paulo Garcia já está há mais de dois anos à frente da Prefeitura de Goiânia. O sr. acha que ele já deixou uma marca dele e do PT na administração?
As administrações municipais do PT têm característica de realizar investimentos maciços na área social. O prefeito Paulo Garcia desenvolveu vários projetos, por exemplo, na área da saúde, impulsionando o funcionamento dos Cais 24 horas e construindo a Maternidade Dona Iris, garantindo a essa obra condições de primeiro mundo para o atendimento da mulher, principalmente das gestantes. Na área da educação, além de impulsionar as escolas de tempo integral, a Prefeitura está construindo também 84 novos CMEIs, os centros municipais de educação infantil. No campo da assistência social, são necessárias algumas ações de impacto e o ex-prefeito Darci Accorsi assumiu a pasta recentemente para tomar essas medidas importantes, no que tange ao atendimento da população em situação de rua e ao apoio às famílias carentes. Os programas Bolsa Família e Petis [Programa para Erradicação do Trabalho Infantil] têm sido marca na área social também. Paulo Garcia tem tido um estilo arrojado e empreendedor na interferência do traçado urbano da cidade. Uma das mostras disso é a construção dos corredores do transporte coletivo, medida que vai reduzir significativamente o tempo de uma viagem bairros–Centro no transporte coletivo. O Eixo U­niversitário, ao longo da Rua 10, já está praticamente pronto. Ao todo, serão implantados quase 20 corredores exclusivos para o transporte coletivo. Isso vai melhorar o transporte coletivo e possibilitar que a pessoa confie no serviço prestado a ponto de deixar o automóvel em casa e ir trabalhar de ônibus, consequentemente reduzindo o número de veículos em circulação e melhorando o trânsito da cidade. Outra conquista nesse setor foi viabilizar o processo de renovação da concessão do Eixo Anhan­guera com o governo do Estado e desenvolveu uma ação extremamente republicana: transferiu o mesmo Eixo Anhanguera, com R$ 264 milhões, para implantação do veículo leve sobre trilhos (VLT), que será uma parceria importante entre os governos federal, municipal e estadual. Em suma, a marca do prefeito Paulo Garcia abrange do aspecto social ao empreendedorismo, tocando obras, dando prosseguimento a todos os projetos do ex-prefeito Iris Rezende (PMDB).

Euler de França Belém — Na campanha de 2004, para seu primeiro mandato, Iris falou que resolveria o problema do transporte coletivo em seis meses. Já se passaram quase oito anos, somando-se as gestões dele e de Paulo. Nada se resolveu. Quando isso acontecerá?
É bom lembrar que o transporte coletivo, hoje, está em situação bem melhor do que havia anos atrás, apesar de ser um problema que sempre preocupa. Quando Iris assumiu como prefeito, a concessão não havia sido sequer renovada. Havia um debate acerca da municipalização total do sistema ou, como alternativa, a manutenção da licitação das concessões. Optou-se pela terceirização para as empresas que já operavam no sistema. Dessa forma, é importante ressaltar que todos os antigos terminais foram reformados e novos foram construídos, como o Terminal Garavelo, que faz todo um processo de otimização do transporte naquela região. O Terminal Bandeiras foi totalmente refeito e hoje dá conforto a todos os moradores que o usufruem. Estão em construção quatro novos terminais, em todas as regiões da capital. O transporte coletivo é um investimento muito caro e a população que o utiliza não é apenas de Goiânia, mas de um aglomerado de quase 30 municípios. Acredito que a CMTC está desenvolvendo, a passos largos, uma solução para o problema, embora mui­ta coisa já tenha sido feita, ressaltando que não é algo que se resolva em curto prazo.

Euler de França Belém — Se o sr. tivesse de convencer al­guém a votar pela reeleição de Paulo Garcia, o que diria ao eleitor? Por que votar nele e não em um candidato do PSDB, por exemplo?
Primeiramente, o prefeito Paulo Garcia tem a marca da honestidade. Ele conhece Go­iânia e tem um projeto de governo que garante ao município a continuidade do Anel Viário, cuja primeira versão está praticamente sucateada, não comporta mais o processo de crescimento da cidade. Paulo trabalha um novo Anel Viário e um novo Plano Di­retor, que vai comportar esse crescimento para os próximos 50 anos. A administração está fazendo viadutos e fazendo a duplicação das principais en­tradas da cidade, principalmente nas ligações com as rodovias federais. Outra questão é que o prefeito participa de uma aliança vitoriosa com o PMDB, que vem de uma gestão empreendedora de Iris Rezende, que passou pelo asfaltamento de todos os bairros de Goiânia e pelo investimento em uma infraestrutura que faz com que hoje a cidade seja modelo em meio ambiente, em estrutura urbana e em educação. A capital hoje é um polo atrativo para investimento em função da qualidade de vida que possui. Se tiver a oportunidade um segundo mandato, Paulo Garcia terá condições de concluir esse projeto, que vai potencializar a cidade para as próximas décadas. Quem circulou pela cidade há dez anos e circula hoje percebe que as administrações de Iris Rezende e Paulo Garcia mudaram significativamente a imagem da cidade.

Elder Dias — Uma coisa o prefeito Paulo Garcia tem conseguido com sucesso: passar ao cidadão a sensação de que a cidade está em obras.
São várias obras concluídas e em andamento: a continuação das marginais visando a conclusão do Anel Viário, o prolongamento das avenidas Goiás Norte e Perimetral Nor­te, vias estratégicas para Goiâ­nia, o ordenamento urbanístico da região em torno do Estádio Serra Dourada e uma obra do porte do Projeto Macam­bi­ra–Anicuns, que finalmente saiu do papel. Ali, serão quase R$ 300 milhões investidos em um parque de quase 30 quilômetros de extensão, que será com certeza um marco na cidade. Eu diria que o modelo é o do Central Park, em Nova York, só que de forma contínua e não ilhada. Transformará a qualidade de vida da cidade, assim como fizeram e fazem os bosques e parques que a capital está recebendo nesta administração. Na área do lazer, o Parque Mutirama dará um novo ordenamento para o Centro de Goiânia. Se existe uma obra que merece ter ISO 9000 é o Mutirama: todo metro quadrado foi auditado pelas mais diversas instituições: pela Câmara, pelo Ministério Público Estadual, pelo Ministério Público Federal, pelo Tribunal de Contas dos Mu­ni­cípios (TCM), pela Cor­re­ge­doria-Geral da União e pelo Exército. Além de tudo isso, ainda foi objeto de conspiração política comandada pelo PSDB e por Carlos Ca­choeira. Os marconistas e Cacho­eira achavam que, impedindo a construção do Mutirama, inviabilizariam também a vitória eleitoral de Paulo Garcia.

Euler de França Belém — O sr. exclui o PSOL dessa lista?
O partido foi agente do marconismo na Câmara de Goiânia.  Quando falo “marconistas”, eu incluo todos os que agiram nes­se sentido.

Euler de França Belém — O PSOL em Goiás também está a serviço do marconismo?
Se nós analisarmos as ações no Mutirama, vamos ver que houve uma conspiração que envolveu inclusive o partido de extrema esquerda que tem representação na Câmara de Goiânia. As gravações da Operação Monte Carlo revelaram que há uma bancada de Carlos Cachoeira na Câmara. Isso foi amplamente divulgado pela imprensa. Foram esses vereadores da bancada de Cachoeira que conspiraram contra o Parque Mutirama. É bom acrescentar que a Justiça já deferiu todos os procedimentos e todas as obras estão em pleno andamento.

Cezar Santos — Quando o sr. diz que os marconistas trabalharam para inviabilizar a obra, o que podemos dizer quando o chefe de gabinete [Cairo Freitas, que pediu exoneração] do prefeito se reúne com uma bancada que o sr. chama de “cachoeirista”? Isso também foi uma movimentação marconista?
Quando se tem uma obra co­mo a do Parque Mutirama, é preciso cumprir uma agenda, que foi proposta pelos vereadores que estavam diante do processo de investigação. O chefe de gabinete, em uma atitude de sensatez e preocupação com a causa pública, pediu afastamento do cargo. Quando eu digo que essa obra do Mutirama foi uma das mais investigadas da história da Prefeitura, digo porque houve todo tipo de percalço durante seu transcorrer: dificuldade em conseguir os recursos, no processo de licitação — extremamente fiscalizado —, no encaminhamento das medições, na desapropriação das áreas, etc. A Câmara está em seu papel de fiscalizar, mas não precisava fazer uma conspiração tão intensa, como agora ficou demonstrado com a Operação Monte Carlo.

Elder Dias — Quiseram colocar a marca da corrupção em uma obra que seria — e deve ser — a marca da gestão de Paulo Garcia?
Existia até então um projeto patrocinado por Carlos Cacho­eira e pelo senador Demóstenes Torres, com o apoio dos marconistas, que era derrotar Paulo Garcia, custasse o que custasse. Essa derrota passava pelo surgimento de todo tipo de obstrução das obras em andamento. Isso envolveu Câmara Municipal e Tribunal de Contas. Aos poucos, dentro do conceito jurídico, legal e republicano, o prefeito foi desmontando toda essa engenharia, está viabilizando as obras e pavimentando o processo político rumo a vitória em uma campanha pela reeleição.

Cezar Santos — PT e PMDB formam uma aliança vitoriosa em Goiânia. E Paulo Garcia depende dela para se reeleger. Setores peemedebistas querem firmar desde já a continuidade da aliança para 2014. O PT se mostra reticente a isso agora. O que o sr. pensa, como operador político que é?
Primeiramente, temos de vencer 2012. Não vamos construir 2014 se não vencermos agora. Para isso, temos de fazer a pergunta que o jornalista Euler de França Belém acabou de fazer: como vamos defender a gestão de Paulo Garcia diante da população, convencê-la de que nosso projeto é o melhor. Além disso, temos de vencer na maioria das cidades no Estado, mantendo as prefeituras que ambos os partidos governam. Para 2014 precisamos de nomes e considero que ainda é muito cedo para defini-los. Uma coisa é certa: vamos manter a aliança que viabilizou nosso projeto em Goiânia, em Anápolis e em Aparecida. Isso precisa ser mantido. Se não nos mantivermos unidos perderemos as eleições. A partir desse pressuposto — o de que PT e PMDB estarão juntos —, precisamos trazer os outros partidos que compõem a base aliada da presidenta Dilma Rousseff.

Euler de França Belém — O PMDB acusa o PT de dificultar uma aliança proporcional em Goiânia. Por que os petistas não querem essa aliança com o PMDB para a chapa de vereadores?
O PT tem a tradição de disputar as eleições com seus próprios quadros. Tem sido assim na maioria das eleições. Normalmente fazemos alianças com partidos de esquerda. Em Goiânia e no Es­tado, em geral, nos aliávamos com o PCdoB e com o PSB, que têm composição de quadros com viabilidade eleitoral muito semelhante aos nossos. Na última eleição para a Assembleia Legislativa, conseguimos eleger Karlos Cabral [deputado da região de Rio Verde] com menos de 15 mil votos, enquanto em outras chapas candidatos que tiveram mais de 25 mil votos não saíram vitoriosos. Por que isso aconteceu? Porque o PT costuma ter uma composição mais ou menos uniforme em seus quadros. Nas eleições para vereador de 2008, ficamos amarrados no debate sobre a aliança majoritária com o PMDB. Perdemos muito tempo para decidir se indicaríamos o vice de Iris Rezende ou não e montamos uma chapa com apenas 32 candidatos. Desses, apenas 23 disputaram as eleições. Elegemos dois [Cidinha Siqueira e Djalma Araújo]. Este ano, não: temos 81 pré-candidatos e o processo de inscrição nem se iniciou, vamos abri-lo de 5 de maio a 5 de junho. Temos uma chapa hoje que viabiliza a eleição de pelo menos 20% do Legislativo goianiense, o que pode garantir ao Partido dos Traba­lhadores seis nomes na Câmara. Nesse sentido, entendo que o PT poderia manter sua chapa e trazer para si um conjunto de partidos para lançar em torno de 70 candidatos; da mesma forma, o PMDB, que faria o mes­mo e traria mais 70 candidatos; por fim, um terceiro grupo, com partidos menores, poderiam lançar mais 70 candidatos. Teríamos, ao todo, mais de 200 candidatos apoiando a campanha de Paulo Garcia. Viabili­za­ría­mos a eleição de um número maior de vereadores, em torno de pelo menos 25. Isso é plenamente possível. O que não podemos é reduzir o número de candidaturas, porque isso enfraqueceria a chapa majoritária e tiraria do pleito nomes de base, que não teriam condições de se candidatar. Minha ideia pessoal — que discuto no PT, mas também com o PMDB e com o grupo dos outros partidos — é ampliar ao máximo o número de candidatos, para eleger uma bancada significativa. Para ampliar, precisamos dos partidos de ponta cada uma das coligações e uma terceira coligação de partidos menores.

Euler de França Belém — Como explicar a ligação forte do PT com a construtora Delta, considerando que José Dirceu foi consultor da empresa?
Goiânia possui grandes o­bras e os editais são publicados em jornais de circulação nacional. São concorrências nacionais e internacionais. Para uma empresa se habilitar em uma licitação precisa ter três requisitos: viabilidade técnica, jurídica e financeira. Essa empresa consegue entrar em todos os processos licitatórios, porque preenche esses requisitos. E consegue oferecer o menor preço, o que, inclusive, é uma das queixas dos concorrentes, porque ela tem o preço muito baixo. Como tirar uma empresa assim de um processo licitatório público? Agora, que se descobriu que existe uma ligação dessa empresa com a lavagem de dinheiro do crime organizado, o prefeito Paulo Garcia suspendeu imediatamente todos os contratos, coisa que o Estado não fez — pelo contrário, o governo os renovou.

Euler de França Belém — A prefeitura de Anápolis [administrada por Antônio Gomide, do PT] também não fez.
A questão em Anápolis é que a Delta presta um serviço essencial à população, que é a coleta de lixo. Como tirar, de um dia para o outro, todos os caminhões de coleta de lixo da cidade?

Elder Dias — Mas o prefeito Antônio Gomide pensa em fazer isso?
Não debati esse tema com ele, mas acredito que o que o prefeito Paulo Garcia fez em Goiânia, suspendendo os contratos, deva ser referência a ser seguida tanto pelo governo estadual como na prefeitura de Anápolis ou de Aparecida, simplesmente porque não podemos ser cúmplices do crime organizado, que financia quadrilhas e interfere dentro do aparelho do Estado, comprometendo a segurança pública, corrompendo autoridades policiais e gestores. Isso é muito ruim para a administração pública. Goiás está no centro de um megaescândalo.

“O STF terá de dizer se Dirceu é chefe de quadrilha”

Euler de França Belém — Como o sr. reage ao fato de que a Delta foi trazida para Goiás pela prefeitura de Goiânia, por Iris Rezende, e de Catalão, por Adib Elias?
Os contratos da Delta com o Estado também são antigos, para pavimentação de rodovias, na área de segurança e de fornecimento de combustíveis para os veículos do Estado. Existem também contratos de locação de veículos. Os tentáculos da Delta estão presentes em todas as esferas do serviço público. Os concorrentes não conseguiam entender como a empresa vencia as licitações com preços tão baixos. Agora está explicado: a Delta usava as obras para lavar o dinheiro oriundo da contravenção. Então, se em uma obra a tabela apontava para 40 reais o metro quadrado, ela cobrava 30 reais, entrava perdendo para lavar o dinheiro do crime. Essa explicação é a que precisava ser dada. Mas que culpa tem o gestor que recebe o serviço se a empresa conseguiu preencher os três requisitos e ganhou a licitação com o preço baixo? O que ele tem de fazer? Ele tem de pagar para ver a obra. Se a obra é entregue, aí houve uma operação licitatória perfeita. O que os jornalistas, os tribunais de contas e o Ministério Público precisam fazer é questionar se houve superfaturamento ou outras irregularidades no processo.

Elder Dias — Agora, depois dos fatos, também é preciso questionar todos os contratos, pois se sabe que o dinheiro tem origem suspeita.
Por isso é que cumprimento o prefeito Paulo Garcia, que foi corajoso e determinado ao suspender todos os contratos com a Delta.

Euler de França Belém — O sr. não acha que pode estar sendo injusto com Marconi Perillo? Se Paulo Garcia e Antônio Gomide não sabiam, por que o governador saberia?
A relação da Delta com o governo do Estado, revelada pela O­peração Monte Carlos, é diferente. As prefeituras tinham contratos de obras que tinham sido executadas ou em fase de execução. Não são obras fantasmas, mas obras reais, vencidas em processo licitatório, como muito bem disse o ex-prefeito Iris Rezende: “Entreguem todos os contratos, chamem os engenheiros e mandem fazer auditoria geral.” No caso do Estado, a situação é diferente, pois se formou uma cumplicidade das autoridades constituídas com o crime organizado. As gravações mostram isso: senadores, secretários, procurador-geral, comandante-geral da Polícia Militar, delegados, corregedor da polícia, agentes e outros tinham interferência direta na estrutura do Estado, de onde comandavam obras, nomeações, proteção à contravenção e formavam quadrilhas que articulavam, dentro do aparato do Estado, o crime organizado. Resta saber se o governador tinha cumplicidade com isso ou não. É essa a discussão.

Euler de França Belém — Nesse aspecto, até agora não há prova alguma de que o governador esteja envolvido.
Sim, mas é um processo em andamento. Se você levar em consideração que apenas 30% das gravações feitas pela Polícia Federal por meio dos grampos aos intocáveis aparelhos do “Clube Nextel”, há muito a se descobrir ainda. Há 70% de conteúdo que virá a público ainda e do qual não sabemos o que consta nele. Pode ser algo muito esclarecedor. Todas as análises de conjuntura política relacionadas à governabilidade e aos processos eleitorais precisam ser realizadas com bastante cautela, porque muita coisa pode aparecer ainda com a Operação Monte Carlo.

Cezar Santos — O que chama a atenção é que o sr. justifica a relação da Delta com as prefeituras petistas, por exemplo; mas o sr. não usa o mesmo peso quando a questão é com o governo do Estado.
Não defendo os contratos da Delta com gestão alguma. O que houve foi um processo licitatório, baseado em critérios técnicos, jurídicos, financeiros e de menor preço. Se o Estado fez dessa forma também, as obras são lícitas. O problema é que a relação do Estado vai além da relação de execução de obras: a empresa passa a ter uma cumplicidade de articulação política com a estrutura do Estado, em função de nomeações e movimentos na área da segurança pública, para proteção à contravenção e ao crime organizado. É totalmente diferente.

Cezar Santos — Se a Delta for alijada do processo das licitações, provavelmente um dos principais nomes de seu partido, José Dirceu, perderá um de seus melhores clientes, já que ele confessadamente dava consultoria à empresa.
Entendo que a CPMI [Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, que reúne Câmara dos Deputados e Senado] do caso Cachoeira precisa apurar isso. A CPMI precisa convocar José Dirceu. O Brasil tem de ser passado a limpo, doa a quem doer, atinja ou não o meu partido. Precisamos de uma Constituinte urgente. As leis elaboradas não atendem mais um país com o ritmo de desenvolvimento econômico como o do Brasil. Não podemos mais conviver com um processo eleitoral em que o financiamento privado seja determinante para o sucesso dos candidatos. Precisamos urgentemente de uma Constituinte, de uma reforma política, de financiamento público das campanhas, de voto em lista fechada — não defendo voto em lista mista. E, para construir as bases desse processo de Cons­tituinte, precisamos de fatos políticos como esse agora, uma CPMI que passe o Brasil a limpo. Pre­cisamos também que o Supremo Tribunal Federal (STF) urgentemente julgue o mensalão (enfático). A população precisa saber se houve o mensalão ou não e quem vai dizer isso, no final, vai ser o STF. É bom sempre lembrar que os réus do mensalão não foram julgados até hoje — apesar de a imagem deles já ter sido condenada pela imprensa.

Euler de França Belém — Dizem que o PT trabalha, nos bastidores, para adiar esse julgamento.
Eu não defendo isso. Acho que tem de antecipar e julgar logo. Além disso, a Operação Monte Carlo mostrou gravações que levam a favorecimento e indução de ações que propiciaram o chamado processo do mensalão. Na verdade, tanto o Ministério Público Federal como o Tribunal Superior Eleitoral, nos autos do processo, disseram que não houve pagamento de mensalidades para deputados federais votarem projetos. Ou seja, não houve mensalão. Houve, sim, caixa 2.

Euler de França Belém — O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, diz que José Dirceu é chefe de quadrilha.
Eu acho que o STF terá de dizer se ele é ou não. Isso é uma acusação que não foi julgada. Agora imaginem se no fim do processo o STF dizer que José Dirceu não foi chefe de quadrilha.

Euler de França Belém — O sr. dá a José Dirceu o benefício da dúvida, mas não o faz para Marconi Perillo.
Em relação ao governador, é necessário descobrir se ele sabia ou não dessas ações de articulação em defesa da contravenção e do crime organizado nas estruturas da segurança pública e de todas essas nomeações e contratos envolvendo seu nome. A verdade tem de aparecer e acredito que o desenrolar da Operação Monte Carlo, da CPMI do Congresso e da CPI da Assembleia Legislativa vai mostrar esses fatos.

Cezar Santos — A CPI da Assembleia terá resultados efetivos?
Vai ser a CPI do deboche. Isso porque a CPI propõe investigar todos os contratos de Carlos Cachoeira de 1995 até agora, incluindo a Gerplan [empresa de Cachoeira que gerenciou as loterias do governo de Goiás].

Euler de França Belém — Uma questão que o PT não discute: quem levou Carlinhos Cachoeira para dentro do governo foi o ex-governador Maguito Vilela, ao possibilitar a criação da Gerplan. O que o sr. acha disso?
Na época, a bancada do PT, por meio do deputado Mauro Rubem, pediu uma CPI para a Gerplan. Mas essa CPI foi derrotada no voto em plenário. Nós questionamos. Foi logo quando estourou o escândalo do mensalão. A proposta não foi adiante.

Euler de França Belém — Mas quem pôs Cachoeira no aparelho do Estado foi mesmo o PMDB?
O ex-governador Maguito deve ser chamado para dar explicações. Acredito que ele será chamado, porque é importante o depoimento dele.  Não vou integrar a CPI, mas posso propor isso. Todas as explicações que esclareçam esses contratos precisam vir à luz do dia. Quem não deve não teme. Defendemos uma CPI ampla, com a participação de todos, inclusive das autoridades do Estado.  O que questiono nessa CPI, quando digo que pode ser a CPI do deboche, é que ela fere o pacto federativo, que estabelece que a fiscalização do governo federal será exercida pelo Congresso Nacional; a fiscalização dos atos do governo do Estado, pela Assembleia Legis­lativa, com o auxílio do Tribunal de Contas do Estado (TCE); e a fiscalização dos atos das prefeituras, exercida pelas Câmaras de vereadores. Seria uma grande aberração a Assembleia Legis­lativa chamar um deputado federal, um senador ou um ministro para explicar contratos do governo federal. Seria um absurdo, porque estaria ferindo o pacto federativo. Assim como é absurdo constitucional a Assembleia convocar um prefeito ou um secretário municipal para explicar contratos da prefeitura com empresas. Isso não é função da Assembleia, mas, sim, das Câ­maras Municipais, como constitucionalmente previsto no pacto federativo. Cabe à Assembleia Legislativa convocar as atuais autoridades do Estado, ex-governadores e ex-secretários. Então, essa CPI tira o foco do governo do Estado de Goiás para focar contratos da empreiteira Delta com as prefeituras. Eu não sou contra fazer investigação sobre os contratos da Delta com as prefeituras, mas que se faça constitucionalmente, nas Câma­ras Municipais. Porque quando a Assembleia toma a iniciativa contrária ao pacto federativo, ela está cometendo um atentado à de­mocracia e ao estado de direito.

“CPI tem de investigar Agnelo também”

Cezar Santos — O sr. foi o deputado que mais se bateu pela CPI. A proposta foi desvirtuada?
A nossa CPI que propomos é muito diferente dessa. A CPI da oposição — temos 13 votos e aguardamos a definição do deputado Major Araújo (PRB) — determina que seja investigada a relação das autoridades constituídas do Estado com o crime organizado e as consequências desse relacionamento na segurança pública do Estado. O número de furtos de veículos subiu de 401 em fevereiro de 2011 para 735 em fevereiro de 2012. Agora, a Secretaria de Segurança Pública já manifesta nos jornais diários que são 30 furtos de veículos por dia. Isso dá 900 por mês. O que isso tem a ver com Carlos Cachoeira e o crime organizado que se infiltrou na Segurança Pública e no aparelho do Estado? Quem protege a contravenção e o crime organizado, pode também estar protegendo outros delitos, porque a criminalidade em Goiás explodiu durante o governo Marconi Perillo. Dos 246 municípios goianos, 206 estão sitiados pelo crack.

Euler de França Belém — Mas isso não é só em Goiás, é em todo o Brasil. No Rio, os índices de violência duplicaram.
Estou dando dados de evolução em Goiás. Em outros Estados houve redução, mas Goiás era o 11º em índice de violência e hoje somos o 3º, na comparação de 2010 com 2011. Podem confirmar os dados. Outro dado interessante: 1.989 homicídios até novembro de 2011, ante uma perspectiva de 2.637 em 2012. Esses números foram dados numa coletiva do secretário de Segurança Pública no dia 6 de março deste ano. E hoje (quinta-feira, 19), novos dados mostram que os números são maiores ainda do que os que justificamos na nossa CPI. Então a nossa CPI quer focar o serviço que o Estado presta à população e que prejuízo a cumplicidade com a crime organizado acarretou na prestação desse serviço, notadamente na área de segurança pública.

Cezar Santos — O Distrito Federal está se tornando um dos lugares mais violentos do Brasil. O número de homicídios lá aumentou 50% em março. E Brasília, que tem recursos fartos da União para a Segurança Pública, é administrada por um petista, Agnelo Queiroz.
Muita influência do Entorno do Distrito Federal. Muitas ações precisam ser feitas para reduzir a criminalidade ali.

Euler de França Belém — O sr. foi muito duro com o governo Marconi. Mas e sobre o governo de Agnelo Queiroz. O que o sr. tem a dizer? Ele está envolvido no esquema do Cachoeira ou não?
Acredito que quem não deve não teme. A CPI do Congresso Nacional tem de investigar o governo do Distrito Federal também. Não quero proteger dirigentes do PT, não, quero que a verdade venha à tona. Quando digo que o STF tem de julgar urgentemente os envolvidos no mensalão, é para passar essa página na história do Brasil. Se tem envolvimento de corrupção no GDF, que se faça CPI; se tem em Goiás, que se faça CPI; se tem em Goiânia, que se faça CPI. Essa Operação Monte Carlo mostra a necessidade de passar a política a limpo. E de imediatamente começarmos um movimento por uma nova Constituinte no País, com reforma política, para moralizar os processos eleitorais. Se o poder econômico não tivesse tanta influência nas eleições, essa intervenção de empresas em licitações em cumplicidade com políticos não seria tão grande conforme está se apresentando na Operação Monte Carlo. Repito: quem não deve não teme. O PT precisa passar para a população uma versão de seus princípios de ética, de moralidade com a coisa p

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