Andréia Bahia
O PT goiano já traçou sua meta para os próximos anos: tornar-se a maior referência da oposição no Estado, espaço tradicionalmente ocupado pelo PMDB. “Esse é o desafio do partido”, afirma o deputado federal reeleito Rubens Otoni. Um desafio que visa especialmente às eleições de 2014. “Para consolidar uma proposta política alternativa para Goiás e ter a oportunidade de chegar ao governo do Estado.”
Depois de quase uma década abraçando os projetos nacionais da legenda em detrimento dos próprios — primeiro para viabilizar a eleição de Lula a presidente por duas vezes, em 2002 e 2006, e, agora, a de Dilma Rousseff —, o PT goiano resolveu voltar a investir em seu fortalecimento no Estado. “Já demos a nossa contribuição para a união das oposições em Goiás”, avalia o deputado estadual Luis Cesar Bueno. Nas duas últimas eleições estaduais, o PT deixou de lançar candidato próprio ao governo e passou por cima de históricas diferenças para apoiar as candidaturas dos aliados, de Barbosa Neto (PSB), em 2006, e de Iris Rezende (PMDB) em 2010.
O partido não poderia ter um cenário mais adequado para retomar o processo de fortalecimento no Estado. “O PT entra em 2011 fortalecido, nunca tivemos um momento tão favorável”, analisa Rubens Otoni. Petistas administram a Capital e Anápolis, uma das principais cidades goianas, além de 12 outros municípios. É uma presença pequena diante da dimensão do Estado com seus 246 municípios? Sim, mas essa capilaridade já foi bem menor, lembra Otoni. O partido aumentou a bancada na Assembleia Legislativa de três para quatro, elegendo um deputado estratégico para os planos do partido: Carlos Kabral, de Rio Verde. Ele vai permitir uma maior interlocução do PT com o Sudoeste do Estado, região goiana importantíssima eleitoralmente.
O PT vai se beneficiar da administração de Agnelo Queiroz, governador do Distrito Federal, no Entorno, e também da de Dilma Rousseff, que dá mostras que vai adotar um estilo diferente de Lula em relação à legenda nos Estados. A estratégia do ex-presidente petista foi de se fortalecer a partir das alianças regionais, a de Dilma é revigorar a legenda nos Estados. Em relação a Goiás, a primeira medida de Dilma foi colocar em funcionamento a Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco), que volta a operar em até 60 dias. O secretário nacional de Desenvolvimento do Centro-Oeste, Marcelo Dourado, já anunciou que, no Centro-Oeste, a região do Entorno do Distrito Federal é considerada fundamental e será a primeira a ser beneficiadas pelos programas da secretaria, que dispõe de um orçamento de R$ 500 milhões neste ano e de recursos da ordem de R$ 5,3 bilhões do Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO). Já nos próximos meses, esta região vai receber R$ 5,4 milhões em obras e serviços.
Para o projeto do PT goiano, o Entorno é estratégico, uma vez que possui 2 milhões de habitantes e é uma região muito suscetível a influência de políticos do Distrito Federal, haja vista que maior parte de seus moradores trabalha em Brasília. Por outro lado, é uma região tradicionalmente desassistida pelos sucessivos governos de Goiás. As cidades do Entorno têm os piores IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do País e carecem de investimentos em todas as áreas. Se a presidente Dilma e o governador do Distrito Federal, ambos do PT, voltarem os olhos para a região, quem se beneficiará com as medidas será o PT de Goiás, que pode vir a ocupar o vácuo político existente na região.
A presidente Dilma também já se comprometeu a viabilizar todas as obras que os prefeitos Paulo Garcia, de Goiânia, e Antônio Gomide, de Anápolis, reivindicarem do governo federal. Obviamente que o projeto do PT para 2014 está relacionado com o resultado da eleição de 2012 e o atendimento às demandas de Goiânia e Anápolis favorecem a reeleição de Paulo Garcia e Antônio Gomide. Para Rubens Otoni, é essencial a reeleição dos dois petistas para que o PT possa entrar na disputa para governador com reais possibilidades de vitória. “Queremos também ampliar o número de prefeitos e vereadores”, afirma Rubens Otoni. Mas segundo ele, não adianta dobrar o número de prefeituras administradas pelo partido e de vereadores se o PT não vencer a eleição em Goiânia e Anápolis.

O prefeito Paulo Garcia evita falar sobre 2012. “A conjuntura pode ser muito propícia eleitoralmente, mas não estamos vivendo um momento eleitoral”, diz evitando o que chama de “descabida antecipação do processo eleitoral”. Que, na realidade, já está em curso.
Além de reeleger os prefeitos de Goiânia e Anápolis, o PT vai se empenhar para ganhar prefeituras importantes do interior, afirma Luis Cesar Bueno. Estão na mira dos petistas, Rio Verde, Iporá, Luziânia, Porangatu e Jataí. Todavia, a ausência de prefeitos no interior não preocupa o deputado. “Dilma venceu a eleição na maioria das cidades do interior e perdeu nas maiores”, diz. Ou seja, ele aposta na influência da presidente para superar a dificuldade que a legenda tem de inserção no interior do Estado.
Derrota de Iris fragilizou o aliado

Além dos próprios méritos, o PT também é favorecido em seu projeto de se tornar hegemônico dentro da oposição pela fragilidade do PMDB, principal partido de oposição ao PSDB no Estado, devido à derrota de Iris Rezende para Marconi Perillo e à divisão interna deflagrada pela ida do deputado Thiago Peixoto para o governo do tucano. “Se o PMDB vive uma crise ideológica, isso não é problema nosso”, diz o deputado estadual petista Luis Cesar Bueno.
O secretário de Governo da Prefeitura de Goiânia, Osmar Magalhães (PT), lembra que esse processo de se tornar centro da oposição é fruto da conjuntura local e nacional. “Não se faz por decreto e depende da correlação das forças políticas de oposição porque não se faz oposição sozinho.”
Se no campo nacional, a disputa em Goiás se dá dentro da perspectiva traçada pela legenda, que se opõe a PSDB e DEM, regionalmente o partido terá que trabalhar junto aos aliados para se tornar referência oposicionista, como é o projeto. “Mas sem entrar em atrito com os outros partidos que compõem a oposição em Goiás”, observa Osmar Magalhães. Na opinião do prefeito Paulo Garcia, o PT goiano trabalha para aglutinar a oposição, segundo as diretrizes programáticas da legenda. “Visando à consolidação da base de sustentação da presidente Dilma Rousseff nas diversas instâncias”, diz.

Para o deputado estadual Mauro Rubem (PT), o projeto de oposição petista é mais consolidado e coerente que o do PMDB. “Discordamos do PSDB em suas posições clientelistas, entreguistas e privatistas. E há uma ala do PMDB que se identifica com o discurso oposicionista do PT, mas um segundo grupo acompanha o PSDB”, afirma Mauro Rubem. “Essa divisão dificulta a ação oposicionista do PMDB, que precisa superar essa crise.” Crise que, naturalmente, coloca o PT no centro da oposição, na avaliação do deputado petista.
Na opinião do presidente do PT estadual, Valdi Camárcio, na medida em que outros partidos não têm unidade em relação à posição ao governo de Goiás, o PT tende a se torna o polo aglutinador. “O PT não quer buscar isso, até porque o PMDB elegeu o dobro de deputados e, naturalmente, é o principal opositor, mas se não tiver união, o partido não tem condição de se tornar polo aglutinador.” Para ele, diante da dificuldade do PMDB em se apresentar como oposição a Marconi Perillo, o PT vai ocupar o espaço. “Essa conquista depende da nossa posição, se vamos conseguir ser esse polo aglutinador.” Mauro Rubem afirma que o PT não trabalha apenas para ser oposição. “Nosso objetivo é implantar nosso projeto em Goiás.”
Todavia, afirma o presidente do PT, a legenda não deve disputar com o PMDB essa hegemonia. “Não é interessante para ninguém dividir a oposição porque devemos estar juntos.” O PT não pretende se tornar oposição isolada a Marconi Perillo, aspira ser o partido catalisador das oposições e quer seus aliados fortes. No caso do PMDB, mais forte ainda porque vai precisar da estrutura da legenda no interior do Estado para implementar sua estratégia para 2014. “Vamos buscar o apoio do PMDB”, afirma Rubens Otoni. Para Paulo Garcia, as duas legendas têm o mesmo peso dentro do grupo. “Não há supremacia, ninguém é mais ou menos.” Uma equivalência importante para que a oposição seja eficiente, na opinião do prefeito.
Projeto do PT é governar Goiás, diz deputado

O projeto do PT é governar Goiás, afirma Luis Cesar Bueno, e para criar essa oportunidade o partido precisa criar o contraditório com o governo do PSDB. “É natural que o maior partido do Brasil e que governa o País venha a lançar candidato a governador”, justifica Bueno. Não apenas para implantar no Estado seu projeto administrativo, mas porque o PT avalia que o PMDB já não tem líderes para disputar o pleito de 2014, depois de sofrer quatro derrotas consecutivas com seus dois principais líderes, Iris Rezende e Maguito Vilela. “Eu não acho que o PMDB seja o partido mais preparado para vencer em 2014. Iris Rezende, o principal candidato peemedebista, já disse que não vai mais disputar eleição”, diz Luis Cesar. O político mais preparado dentro do PMDB seria o deputado federal Thiago Peixoto, que hoje se tornou secretário de Marconi Perillo, e os deputados eleitos Wagner Siqueira e Francisco Júnior não têm a estatura eleitoral para enfrentar Marconi Perillo, na avaliação dos petistas. São cotados para vice de um candidato do PT.
O candidato natural do PT a governador parece ser Rubens Otoni, mas não é ele que vem sendo cotado, nos bastidores, para disputar a eleição de 2014. O deputado petista carrega duas derrotas das eleições para prefeito que disputou em Anápolis e estas derrotas pesam contra sua indicação para candidato o governo. Seu irmão, Antônio Gomide, está sendo preparado para enfrentar Marconi Perillo.
Caso seja reeleito prefeito de Goiânia em 2012, Paulo Garcia também se cacifa para ser candidato a governador pelo PT em 2014 com o apoio do grupo político de Pedro Wilson. Internamente, prevalece no PT a disputa entre Rubens Otoni e Pedro Wilson, que deve bancar a candidatura de Paulo Garcia para evitar a ascensão do grupo de Rubens no Estado.

Para o cientista político e professor da PUC Goiás Wilson Ferreira da Cunha, tanto o PT quanto o PMDB estão muito fragilizados, o que enfraquece a oposição no Estado. “Os partidos políticos precisam de um líder carismático e nenhum destes dois partidos tem.” Segundo o professor, Goiás tem três líderes no momento, Marconi Perillo, Demóstenes Torres (DEM) e Iris Rezende (PMDB), que está enfraquecido por causa da derrota na eleição passada. “As lideranças do PT são parecidas com Alcides Rodrigues, devagar, mansas e apagadas, com pouca densidade eleitoral. Deviam estar em casa e não atuando.” Goiás, na opinião do cientista político, se tornou refém de Iris, Marconi e Demóstenes. “A democracia precisa de lideranças, todo país precisa de uma elite dirigente porque não é o povo que deve tomar as decisões.”
Na avaliação de Wilson Ferreira, “o PT quer ser o centro, mas é um partido nanico que não tem densidade eleitoral”. Ele não percebe em Goiás uma oposição partidária articulada, apenas as vozes de algumas lideranças isoladas. “A oposição em Goiás não tem projeto de poder alternativo por causa da falta de lideranças. Quais são as ideias? Só porque perdeu a eleição passa a ser contra?” O professor lamenta a fragilidade da oposição no Estado. “Se não tiver oposição não tem democracia.” Segundo ele, esse quadro ocorre porque em Goiás os partidos têm projetos de poder e não de governo, “exceto PSDB e DEM”.
O PT é um partido da Capital em Goiás, afirma o cientista políticos e professor da UFG Pedro Célio Alves Borges. Segundo ele, em Goiás o PT não teve uma expansão marcante, mantendo estrutura organizacional aquém do esperado em face dos oitos anos no poder federal. “Mesmo em Goiânia o PT minguou, como força eleitoral e como força de mobilização social. Mas há outra fragilidade no PT que considero empecilho maior ao um projeto partidário, que é a ausência de discurso consistente para se postar no jogo de poder regional. Esse é um drama que vem de um certo tempo e o PT goiano mostra dificuldade para sair dele, pois nos últimos anos ele jogou todas as fichas na viabilização do poder federal. Daí o partido abdicou da trilha de antes, que indicava um certo protagonismo regional.”
Bandeira

Pedro Célio percebe elementos que favorecem o PT a se tornar centro da oposição em Goiás, mas estes devem ser confirmados, ou não, pelo PMDB, “a agremiação que detém essa condição com mais reconhecimento na opinião pública e entre as forças políticas”. Se o PMDB largar a bandeira, pode ser que abra um espaço ao PT. Mas a legenda deve contar apenas consigo mesmo nesse processo, na opinião do cientista político. Pelo menos no início de mandato, Dilma Rousseff deverá costurar a própria governabilidade, “evitando se jogar nas querelas locais ou regionais”.
Para Pedro Célio, não é tão natural, como para os petistas, repetir nas regiões a polarização da política nacional. Segundo ele, não se pode afirmar que é o cenário natural. Em Goiás, afirma, o peso do antagonismo entre PMDB e PSDB não está esgotado. “De outro lado, a polarização do cenário nacional não costuma se reproduzir com o mesmo fervor nos estados, independente de quais sejam as siglas em questão.”