Luis Cesar Bueno ressalta importância de Chico Buarque na campanha de Lula.
Publicado 14/05/2006
Durante encontro de lideranças de Goiânia que atuam no movimento comunitário, ocorrido nesta segunda feira, 15 de maio, o deputado Luis Cesar Bueno solicitou da direção do PT de Goiás a inserção de mensagens do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda nos programas do PT durante o Horário destinado aos partidos politicos pelo TRE. Luis Cesar Bueno disse que a arte musical de Chico Buarque representa a luta de várias gerações que defedem um “Brasil para os brasileiros, com inclusão social” O cantor e compositor Chico Buarque de Holanda reafirmou seu voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva em várias entrevistas de lançamento de seu novo CD, “Carioca”. À revista Carta Capital, o músico se mostra surpreso com o nível dos ataques ao presidente da República. “Os opositores se batem contra isso de uma forma brutal. Há insultos à figura do presidente da República como eu nunca vi anteriormente, nem mesmo ao Collor”, avaliou. Chico Buarque fez análises da crise que atingiu o PT, com o qual sempre manteve relações amistosas, e descredenciou a oposição tucana e pefelista, como alternativa ética ou política. Chico reconheceu erros e limites no PT e no governo Lula, mas não viu autoridade no “senador canastrão que vai à tribuna e ameaça dar porrada no presidente da República”. Reclamou da política econômica de Lula, mas não viu novidades nas oposições. E considerou que o preconceito das elites com o PT e com o Lula se expressa na imagem de que seria “hora de Lula voltar para a senzala”. Ele disse que a mídia “erra na mão” no teor e na densidade da crítica ao PT e ao governo federal – ainda que sejam justas algumas dessas críticas. Porém, se comparada com a cobertura que a mídia deu a FHC, ele identifica uma clara distorção. Em outra outra entrevista na folha de São Paulo, publicada dia 06 de maio, chico reafima que “vota em Lula de novo”, veja a entrevista na integra: CHICO DIZ QUE VOTA EM LULA DE NOVO Chico critica oposição que trata Lula como um “vagabundo que deve voltar à senzala”. FERNANDO DE BARROS E SILVA – EDITOR DE BRASIL “É duro jogar na defesa.” Foi esse o comentário bem-humorado que Chico Buarque fez assim que terminou a primeira parte de uma entrevista feita em dois tempos, no domingo à noite e na segunda-feira à tarde, no seu apartamento no Leblon. O compositor se referia à defesa que acabara de fazer do governo Lula. Mas Chico Buarque não sabe, não gosta e não joga na defesa. Como no futebol, que, perto de completar 62 anos, em junho próximo, continua praticando três vezes por semana, Chico partiu logo para o ataque. Disse que o escândalo do mensalão o deixou, sim, decepcionado com o governo e é desastroso para o PT. Mas disse com ênfase ainda maior que as críticas da oposição e de parte da mídia a Lula exorbitaram tanto no tom quanto no conteúdo e são, por isso, inaceitáveis. Mais ainda, Chico vê o recrudescimento do preconceito de classe contra o presidente: “Como se fosse uma concessão, deixaram o Lula assumir. “Agora sai já daí, vagabundo!”. É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a Casa Grande”, diz Chico. Folha – No fim de 2004, em entrevista à Folha, você via uma onda de ódio aos pobres e de ódio a Lula no país. Entre aquele diagnóstico e a situação de hoje houve a crise do mensalão. Você está decepcionado? O que mudou no governo Lula? Chico Buarque – É claro que esse escândalo abalou o governo, abalou quem votou no Lula, abalou sobretudo o PT. Para o partido o escândalo é desastroso. Espero que disso tudo possa surgir um partido mais correto, menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia de que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que você ou é tucano ou é burro [risos]. Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao PT, mas principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que se trata do governo mais corrupto da história do Brasil, é preciso dizer “espera aí”. Quando aquele senador tucano canastrão vai para a tribuna do Senado dizer que vai bater no Lula, dar porrada, quando chamam o Lula de vagabundo, de ignorante, aí estão errando muito a mão. Governo mais corrupto da história? Onde está o corruptômetro? É preciso investigar. Tem que punir, sim. Mas vamos entender melhor as coisas. Folha – Como assim? Chico – Pergunte a qualquer pequeno empresário como faz para levar adiante seu negócio. Ele é tentado o tempo todo a molhar a mão do fiscal para não se estrepar. O mesmo vale para o guarda de trânsito. E assim sucessivamente. A gente sabe que a corrupção no Brasil está em toda a parte. E vem agora esse pessoal do PFL, justamente eles, fazer cara de ofendido, de indignado. Não vão me comover. Eles fazem o papel da oposição, está certo. O PT também fez o “Fora FHC”, uma besteira. Mas o preconceito de classe contra o Lula continua existindo -e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente. O sujeito mais humilde ouve e pensa: “Que história é essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?”. Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! -até assassino eu já ouvi. Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição. Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram o Lula assumir. “Agora sai já daí, vagabundo!” É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a Casa Grande. “Agora volta pra senzala!” Eu não gostaria que fosse assim. Folha – Você acredita que o Lula seja de fato visto como uma ameaça pelos mais ricos? Chico – A economia, na verdade, não vai mudar se o presidente for um tucano. A coisa está tão atada que honestamente não vejo muita diferença entre um próximo governo Lula e um governo da oposição. Mas o país deu um passo importante elegendo o Lula. Considero deseducativo o discurso em voga: “Tão cedo esse caras não voltam, eles não sabem fazer, não são preparados, não são poliglotas”. Acho tudo isso muito grave. Folha – Você vai votar no Lula? Chico – Hoje eu voto no Lula. Vou votar no Alckmin? Não vou. Acredito que, apesar de a economia estar atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o Lula tem mais condições de atender. Vai ficar devendo, claro. Já está devendo. Precisa ser cobrado. Ele dizia isso: “Quero ser cobrado, vocês precisam me cobrar, não quero ficar lá cercado de puxa-sacos”. Ouvi isso dele na última vez que o vi, antes de ele tomar posse, num encontro aqui no Rio. Folha – Vários artistas andaram criticando o PT, o governo e Lula. O meio artístico, ao que parece, não vai mais embarcar no “Lula lá”. Chico – Pelo que eu ando lendo, a grande maioria dos artistas está contra o Lula. Tenho a missão de contrabalançar um pouco isso [risos]. Há também entre os artistas um pouco daquela competição: quem vai falar mais mal do presidente? Mas concordo em parte com o Caetano. Em parte. Quando ele fala que as pessoas do atual governo se cercam da aura de esquerda para justificar seus atos e reivindicar para si uma posição superior à dos demais, tudo isso também vale para o governo anterior. Os tucanos costumam carregar essa aura de esquerda com muito zelo. Volta e meia os vemos dizendo que foram contra a ditadura, que são intelectuais de esquerda. Fernando Henrique foi eleito como candidato de centro-esquerda. Na época a vice entregue ao PFL parecia algo estranho. Depois se provou que não era. As pessoas se servem do passado de esquerda como se fosse um título, um adorno. Na prática política essa identidade não funciona mais. Mas não funciona não só porque as pessoas viraram casaca. A história levou para isso. Levou o PSDB a se tornar o que é e obrigou o PT a abdicar de qualquer veleidade socialista ou revolucionária. Folha – O que você acha do PSOL e dessa turma que deixou o PT fazendo críticas pela esquerda? Chico – Percebo nesses grupos um rancor que é próprio dos ex: ex-petista, ex-comunista, ex-tudo. Não gosto disso, dessa gente que está muito próxima do fanatismo, que parece pertencer a uma tribo e que quando rompe sai cuspindo fogo. Eleitoralmente, se eles crescerem, vão crescer para cima do PT e eventualmente ajudar o adversário do Lula. Folha – Como você vê a atuação da mídia no escândalo do mensalão? Tem gente que ainda diz que a mídia criou ou inventou essa crise. Chico – Não acho que a mídia tenha inventado a crise. Mas a mídia ecoa muito mais o mensalão do que fazia com aquelas histórias do Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas chapa-branca dispostos a defendê-lo. O Lula não tem. Pelo contrário, é concurso de porrada para ver quem bate mais. Folha – O rumo que tomou o Brasil e o mundo o faz se sentir derrotado? A sua geração perdeu? Chico – É evidente que parte da minha geração que chegou ao poder não lutou a vida inteira para isso. Eu vou dizer: até mesmo pessoas que hoje são execradas publicamente, como o Zé Dirceu… Não tenho maior simpatia pelo Zé Dirceu, não assinei manifesto em defesa dele, acho que ele errou, que ele tem culpa, sim, por tudo o que aconteceu, mas eu respeito uma pessoa que num determinado momento entregou a sua vida, jogou tudo o que tinha em nome de uma causa, do país. Como o Zé Dirceu eu poderia citar outros nomes que chegaram ao poder, mas chegaram despidos daquele sonho em nome do qual eles lutaram a vida toda. Quem sabe para chegar ao poder tiveram justamente que se render ao pragmatismo. A pessoa que chega ao poder é um pouco um fantasma daquela que deu a vida por algo que não se realizou. Folha – O público mais jovem tem interesse pelo que você e sua geração fazem hoje? O que mudou na recepção do seu trabalho? Chico – Mudou muita coisa. Para as pessoas mais velhas, as músicas costumam ter história, lastro, estão ligadas à vida de cada um ou relacionadas a momentos do país. É comum ouvir “isso me lembra as Diretas-Já, isso me lembra Geisel, isso me lembra o Festival da Record”. Para a garotada não há nada disso. Para eles sou músico de um passado só. Outro dia um jovem me disse: “Adoro aquela sua música”. “Qual?”, perguntei: “Com Açúcar, com Afeto” [risos]. A música tem 40 anos!. Folha – É uma jovem senhora, mas ainda chama a atenção. Chico – Isso na verdade é cíclico. Nos anos 80, em determinado momento que uma parte expressiva da mídia flertou com muito entusiasmo com uma certa idéia de internacionalização da cultura e de desbunde com o mercado, parecia que a música da gente já era. Nacional, só rock e olhe lá. Eu fui considerado completamente ultrapassado. Depois voltou. Daqui a pouco pode ser que não interesse mais. A gente continua fazendo -existe uma teimosia aí. E também, a essa altura, uma natural despreocupação com o sucesso imediato. Mesmo porque o sucesso imediato não acontece. Folha – Você considera que o novo CD exige uma digestão mais lenta? Chico – Você e outros comentaram que, a exemplo do anterior, o disco não é fácil de se gostar na primeira audição. Talvez não seja mesmo. Eu aposto um pouquinho no fato de que a pessoa vá ouvir várias vezes. É difícil no meu caso ter uma música que seja um grande sucesso, que toque no rádio -eu não conto com isso. Não estou preocupado em fazer, como diziam os italianos, uma música “orecciabile”, “orelhável”. No final dos anos 60, quando morei em Roma, eles queriam que eu fizesse outra música como “A Banda”, “orecciabile”. E eu acabei não fazendo outras músicas “orelháveis”, frustrando muitas expectativas. Hoje não existe nenhuma expectativa, nem minha nem de ninguém, de que eu precise ou vá compor uma música “orecciabile”. É natural que haja um tempo maior e um apuro maior, não apenas no processo de composição mas também no trabalho de estúdio, durante os arranjos, as gravações. É sem dúvida um trabalho mais sério, mais cuidado do que era há anos atrás. Não quero dizer que isso resulte numa música “impopular” de propósito, uma música sofisticada demais -não acho isso-, mas é uma música que não tem compromisso com o sucesso. Isso talvez a torne mais longeva. Folha – Você transmite a sensação de que gostaria de ver seu trabalho melhor compreendido. Chico – Sei que é difícil falar do disco. Até para mim é difícil. Em jornal, crítico de música geralmente é crítico de letra. É compreensível que seja assim -a letra vai impressa, o crítico destaca este ou aquele trecho. Funciona assim. Eu cada vez mais dou importância à música e tenho vontade de dizer: “Olha, só fiz essa letra porque essa música pedia. Isso não é poesia, é canção”. Enfim, fico um pouquinho chateado com essas coisas, mas sei que é difícil. Como é que vai imprimir uma partitura no jornal e explicar aos leitores? Folha – Você volta a fazer shows? Chico – Tenho vontade de fazer, sim. Depois da gravação, do convívio com os músicos no estúdio essa vontade aparece. É o passo seguinte, de certa forma natural. Vamos ver depois da Copa. Folha – Você acaba de gravar 12 programas dirigidos por Roberto de Oliveira, que mesclam entrevistas inéditas e imagens de arquivo cobrindo praticamente toda a sua carreira. Chama a atenção a maneira desinibida com que você acabou passando a limpo a sua trajetória. O que o levou a fazer esse balanço? Chico – O Roberto foi me engabelando [risos]. A idéia inicial eram dois ou três programas. Achei que a proposta de recuperar imagens de arquivo que de outra forma ficariam perdidas justificava o trabalho. Mas só fazia sentido se isso viesse acompanhado de algo mais. Folha – Esses documentários dos anos 70 e 80 que os programas recuperam chamam atenção pelo despojamento, pelo ambiente caseiro, de ensaios descontraídos. Vivia-se em outro planeta, não? Chico – Fiquei muito tempo fora da Globo durante a ditadura, primeiro porque eles me vetaram, depois, quando me chamaram, porque eu não queria. Esses programas eram um contraponto à programação e à estética da Globo. Mostravam os artistas gravando, bebendo, era uma coisa meio mal-acabada, meio alternativa. Alguns discos, não apenas os meus, também tinham esse clima. Era uma bagunça. Ouvindo hoje a gente tem a sensação de que o cantor bebeu, o maestro fumou e o produtor cheirou, não necessariamente nessa ordem [risos]. Era muita loucura, o estúdio cheio de gente, garrafas pelo chão, uma festa. Hoje você entra num estúdio e é aquela coisa ascética. Parece um hospital. Não se come, não se bebe, não se fuma, não se faz nada ali dentro. Naquela época havia um certo valor nessa transgressão, nesse desregramento. Você ia gravar daquele jeito, todos no estúdio estavam daquele jeito e provavelmente quem ia ouvir os discos também estava daquele jeito. Não deixava de ser uma maneira de enfrentar e suportar a repressão. Hoje não faria nenhum sentido gravar naquelas condições. Folha – Era uma época mais simpática? Chico – Não acho nada simpática. Não dá para abstrair a ditadura. Uma coisa é Maio de 68 na França. Outra, completamente distinta, o nosso dezembro de 68. Folha – Quando pensamos nas mazelas do Rio, a imagem que nos vem à cabeça é a dos morros, das favelas dominadas pelo tráfico, da miséria pendurada na paisagem da zona sul. Sua canção “Subúrbio” desloca nossa atenção para as costas das montanhas, onde o drama social parece condenado ao esquecimento e ao silêncio. É como se a própria miséria tivesse também a sua periferia… Chico – Existe mesmo na canção a intenção de fazer cantar a periferia -ou antes a periferia da periferia da periferia. O Brasil sempre ocupou uma posição periférica no mundo e o Rio, cada vez mais, está numa situação periférica em relação às decisões nacionais, ao poder, a São Paulo. O subúrbio do Rio é a periferia dessa cidade meio marginalizada e está literalmente fora do mapa. Fui procurar mapas do Rio quando estava fazendo a canção e não encontrei nenhum incluindo o subúrbio. As pessoas se lembram de Vigário Geral por causa da chacina, sabem que existe Olaria e Madureira por causa do futebol, mas não se vai muito além. Folha – Quando você se refere ao subúrbio, não fala apenas da vida inviável, da violência, da condenação ao esquecimento, mas de um lugar que, para além disso, preserva tradições populares e formas de arte como o samba-de-roda, as cabrochas e o próprio choro. Isso convive com o rap, o hip hop, o funk, o rock. Enfim, há vários tempos históricos convivendo na canção. Chico – Isso existe, esses tempos estão lá. Mesmo esse subúrbio idílico, que aparece muito nas novelas, isso também existe, mas misturado a outras formas de existência e expressão dessa realidade. Folha – Você diz, entre sério e irônico, que “Carioca”, o título do CD, é uma homenagem a São Paulo, pois era assim que lhe chamavam os amigos paulistanos quando você vivia na cidade. Já foi mais fácil ser carioca? Chico – “Carioca” é o nome do disco, não sou eu me declarando -não se trata de uma afirmação pessoal. O disco acabou resultando carioca pela temática de várias canções e pela linguagem musical -essa, sim, talvez mais acentuadamente do que em outros discos meus, é carioca. Folha – Você não teme com esse título reavivar ou ser vítima de velhos bairrismos? Chico – Não pensei nisso e não tenho essa intenção, pelo contrário. Talvez também porque tenha morado muito em São Paulo e algum tempo fora do país eu sempre achei qualquer forma de bairrismo uma grande besteira. Enquanto é brincadeira, vá lá, tolera-se, mas quando começa a virar coisa séria não dá.