Luis Cesar Bueno concedeu entrevista a jornalistas do Jornal Opção
Publicado 02/01/2007
O deputado Luis Cesar Bueno concedeu entrevista aos jornalistas Euler Belém, Afonso Lopes e José Maria do Jornal Opção, edição que circulou no dia 31/12/2006, ùltimo dia do ano, ocasião em que analizou a conjutura política e econômica do estado, as perpectivas para o novo mandato do presidente Lula e a disputa pela presidência da Assembléia Legislativa. Veja a matéria na íntegra: LUIS CESAR BUENO “A Assembléia Legislativa não tem autonomia” A Assembléia Legislativa não pode continuar sendo servil ao Executivo. Quem defende essa tese é o deputado estadual Luis Cesar Bueno, do PT. Para ele, a Assembléia se comporta como um órgão de segundo escalão do governo. “Não chega nem a ser uma secretaria”, ironiza. O deputado defende mudanças no regimento interno da Casa e cobra uma revisão na Constituição do Estado. Luiz Cesar Bueno diz que o governo do Estado se apropria de obras do governo federal, por isso apóia a frente de defesa do governo Lula em Goiás, articulada pelo PT e PMDB. “Lula vai exigir mão dupla: apoio vai, apoio vem” Deputado estadual do PT prega a autonomia da Assembléia Legislativa e diz que o presidente Lula vai cobrar a defesa de suas obras no Estado O primeiro governo Lula ficou marcado pela falta de obras de infra-estrutura e o excesso de superávit primário. Pelo menos foi essa a interpretação corrente em boa parte da imprensa brasileira. Para o deputado estadual Luis Cesar Bueno, do PT, essa é uma visão “completamente equivocada”. Segundo ele, o governo Lula tem muitas obras e programas sendo realizados em todo o país. “Em Goiás, Lula tem feito muita coisa.Mas sua base de sustentação no Estado não conseguiu capitalizar as obras do nosso governo”, explica. De acordo com o deputado, tanto o governo estadual quanto prefeitos do PSDB e PFL, mesmo fazendo oposição ao governo petista, conseguiram capitalizar politicamente muitas obras do governo Lula, como a construção de casas populares e a eletrificação rural. Em visita ao Jornal Opção, na manhã de quarta-feira, 27 de dezembro, Luis Cesar Bueno observou que um apoio do governo Lula ao governo Alcides Rodrigues vai exigir uma contrapartida. “Pessoas da base aliada do governo estadual que atacavam Lula raivosamente estão dizendo, agora, que o PP faz parte da base de sustentação do governo Lula, por isso o presidente tem de ser parceiro administrativo do governo do Estado. Não é bem assim”, reclama. O deputado cobra uma revisão completa na ocupação dos cargos federais no Estado e afirma que o PT dará sustentação política ao prefeito Iris Rezende, devido à aliança nacional entre PT e PMDB. “Essa é uma decisão partidária”, enfatiza. O deputado Luis Cesar Bueno critica a anistia fiscal proposta pelo governo do Estado, prega a autonomia da Assembléia Legislativa e defende a elaboração de um plano diretor único para as regiões do Aglomerado Urbano de Goiânia e Entorno de Brasília. Euler de França Belém — Qual a razão de suas críticas à anistia fiscal proposta pelo governo de Goiás? A anistia fiscal propicia, no início, uma arrecadação significativa, mas, com o tempo, se for concedida seqüencialmente, ela beneficia o mal pagador e penaliza o contribuinte adimplente. No início de cada novo governo, tem sido concedida uma anistia fiscal ampla, reduzindo as multas e até perdoando integralmente as multas e juros. Isso funcionou nas gestões municipais e funcionou no primeiro governo do PSDB em Goiás, marcado por concessões fiscais mais criteriosas. Nos últimos três anos, na medida em que o governo aumentou demasiadamente suas despesas sem ampliar as receitas, a anistia fiscal tem sido uma constante. E seus efeitos estão sendo sentidos agora, com a queda na arrecadação. Se o governo não conseguir fazer um ajuste fiscal, que os governos tucanos também chamam de choque de gestão, o governo Alcides passará por maus momentos na área financeira. Afonso Lopes — O último programa de refinanciamento da dívida de impostos não teve como objetivo atender à Lei de Responsabilidade Fiscal? O que aconteceu é que o governo não está conseguindo saldar seus compromissos. Até a sexta-feira anterior ao Natal, oito órgãos ainda não tinham recebido o pagamento. O governo está antecipando a arrecadação de fevereiro para quitar a folha de novembro. É uma solução paliativa, que resolve o problema do fluxo de caixa no momento, mas cria problemas no futuro. O governo Alcides está pagando muito caro pelas antecipações de receita que foram realizadas no final do governo Marconi. A Lei de Responsabilidade Fiscal diz que o governante tem de quitar todas as despesas empenhadas durante o exercício. Caso elas passem para o ano seguinte, ele tem de deixar as receitas necessárias para quitá-las. Estamos percebendo que o governo não tem receitas para cobrir essas despesas. Sua equipe econômica está fazendo um malabarismo muito grande para cobrir as despesas do exercício em vigor, quitando a folha de novembro. Mas o servidor não sabe quando receberá dezembro. Por isso, insisto: o governo Alcides tem que adotar o remédio amargo do corte de despesas, para conseguir ajustar as finanças do Estado. Precisa reduzir pessoal e aumentar tributos, como foi feito no caso do aumento do ICMS da energia elétrica, que passou de 25 para 29 por cento. Agora, está aumentando o imposto do álcool e da gasolina. Inclusive, votei contra esses aumentos. Euler de França Belém — A energia elétrica não podia ser um pouco mais barata? Goiás tem a maior alíquota de ICMS de energia elétrica do Brasil. Em Minas Gerais, ela é 12 por cento. Em São Paulo, 11 por cento. Em Goiás, é 29 por cento. É um imposto fácil de cobrar, mas com um efeito danoso para a sociedade. José Maria e Silva — Se ele for muito baixo não pode estimular o gasto excessivo de energia? Com o apagão e o aumento considerável do quilowatt, o povo brasileiro aprendeu a economizar energia de uma forma significativa. A tecnologia também contribuiu para isso. As lâmpadas atuais são mais econômicas. Todas as camadas da sociedade reduziram significativamente o consumo de energia. Euler de França Belém — O governo Alcides alega que um dos motivos da queda da arrecadação foi a crise do agronegócio. E alguns setores responsabilizam o governo Lula por essa crise. A produção agrícola não caiu. Pelo contrário, teve um crescimento significativo. O que houve foi uma aposta dos expoentes do agronegócio na instabilidade econômica do país e no dólar alto. Eles esperavam um dólar na faixa de 3,50 reais. Como o dólar caiu e os contratos foram feitos em dólar, o produtor acabou perdendo. Mas o governo Lula adotou as medidas necessárias para amenizar a crise, em que pese isso ter sido muito pouco divulgado. Para os produtores que possuíam dívidas com empresas privadas, o governo instituiu o FAT rural, com juros de 3 por cento ao ano. No caso dos débitos com o Banco do Brasil, o governo prorrogou o prazo de pagamento por mais 12 meses. Em vários casos, refinanciou novamente a dívida. Aliás, muitas dessas dívidas já vinham sendo roladas desde a época do governo Collor. Mas não vamos conseguir resolver o problema do agronegócio sem reduzir o custeio agrícola. Quem ganhou com a crise do agronegócio foram as empresas multinacionais, que continuaram vendendo os insumos agrícolas com preços altíssimos. É preciso instituir o genérico na área dos insumos agrícolas, tal qual o genérico entrou na industria farmacêutica. É inadmissível um determinado tipo de adubo custar 180 reais no Uruguai, na fronteira com o Brasil, e custar 700 reais no Brasil. O governo estuda a implantação dos insumos genéricos no setor agropecuário ou a instituição da alíquota zero para esses produtos, liberando totalmente a importação e estabelecendo a lei do livre mercado no setor. As empresas multinacionais terão que se adequar às regras de mercado. Euler de França Belém — Apesar das medidas tomadas pelo governo, parece que a área plantada neste ano será menor. Os números do Banco do Brasil não mostram isso. Se não tivermos problemas com o clima, vamos ter surpresas positivas no setor agrícola. A área plantada está sendo reduzida, mas, em função da tecnologia aplicada, a produtividade tem aumentado significativamente. Por isso, a queda de arrecadação do Estado não pode ser atribuída exclusivamente à crise do agronegócio, que vem sendo paulatinamente resolvida. A anistia fiscal, insisto, é o principal problema. Ela cria uma cultura negativa para as finanças públicas. A empresa que possui demandas de expansão começa a protelar o pagamento do ICMS para aguardar uma nova anistia fiscal. Algumas anistias fiscais são até articuladas antecipadamente. O empresário fica sabendo que um determinado setor da atividade econômica será contemplado dentro de dois ou três meses e decide não pagar o imposto, esperando a anistia. Isso é facilitado pela fragilidade da Assembléia Legislativa, porque, quando um pacote de medidas econômicas e fiscais vai para a Assembléia, ele já foi discutido com todos os segmentos do setor produtivo durante meses. Já os deputados são obrigados a apreciá-lo das 20 horas, quando chega na Casa, até as 22 horas, quando será aprovado a toque de caixa. Dessa forma, o Legislativo não consegue cumprir com o seu papel. Não tem autonomia para debater, verdadeiramente, os problemas de interesse da sociedade. Euler de França Belém — Por isso, há quem diga que a Assembléia Legislativa é a melhor secretaria do governo estadual. Sim. Eu diria que é uma secretaria de segundo escalão. Não chega nem ser a do primeiro. A subserviência da Assembléia Legislativa é tão grande que ela se recusa a discutir os relatórios enviados pelo Tribunal de Contas do Estado. São relatórios bem elaborados, porque o tribunal tem técnicos competentes. Por quatro anos seguidos, o tribunal faz ressalvas nas contas do governo do Estado, mas a Assembléia não debate esses problemas. Quando eu era presidente da Comissão de Orçamento e Finanças da Câmara Municipal, eu reunia, constantemente, com todos os conselheiros do Tribunal de Contas dos Municípios para debater a prestação de contas da Prefeitura de Goiânia. Estou há quatro anos na Assembléia Legislativa e nunca vi um conselheiro do TCE se reunir com a Comissão de Orçamento e Finanças ou com o plenário da Casa para debater as contas do Estado. José Maria e Silva — O ajuste fiscal é um problema de todos os Estados brasileiros, tanto que os governadores estão pressionando o presidente Lula para que ele faça uma renegociação da dívida. O Brasil não está precisando de uma reforma tributária realmente séria, que reduza ao máximo os impostos e acabe com essa moeda de troca em que o ICMS se transformou nos Estados? Fui diretor tributário da Secretaria de Finanças da Prefeitura de Goiânia, de 1993 a 1996. [Na administração de Darci Accorsi, então no PT.] Durante todo aquele período, ficamos discutindo reforma tributária. Fui vereador durante seis anos e a discussão básica continuou sendo a reforma tributária. Vem sendo assim até hoje. O governo Lula conseguiu mandar para o Congresso Nacional um projeto de reforma tributária. Entretanto, a unificação do ICMS não vingou, em função da política dos governadores. Aos governos estaduais não interessa uma reforma tributária que acabe com a guerra fiscal. A competitividade entre os Estados já criou raízes. A disputa de Goiás com São Paulo e Minas Gerais, por exemplo, foi satisfatória para Goiás, através da atração de indústrias propiciada pelos programas Fomentar e Produzir. Várias empresas do Sul e Sudeste vieram para Goiás em função desses programas. Elas estão usufruindo desses incentivos e não é possível extingui-los de uma hora para outra. O setor produtivo brasileiro tem que fazer uma política com os governadores e, na seqüência, com o governo federal, propondo a unificação das leis tributárias. Depois, é preciso trabalhar uma redução seqüencial dos impostos, com o objetivo de aumentar a produção. A perda de receita que os governos terão com a redução das alíquotas será compensada pelo aumento do consumo e, consequentemente, pela redução da sonegação fiscal. Enquanto esse concerto não for estabelecido, não teremos reforma tributária no Brasil. O projeto de reforma tributária encaminhado pelo presidente Lula ao Congresso é tímido, mesmo assim não conseguiu vencer a pressão contrária dos governadores. Afonso Lopes — O grande problema é a distribuição do bolo tributário nacional. O governo federal fica com quase 70 por cento de todos os impostos, quando o correto seria que a maior parte ficasse com os Estados e, sobretudo, com os municípios. Por isso, os Estados são obrigados a apelar para os incentivos fiscais, como forma de atrair indústria e gerar receita. Não está na hora de rediscutir a repartição do bolo tributário e não apenas os índices de impostos? As experiências mostram que não adianta o governo tomar a iniciativa de encaminhar um projeto de reforma tributária para apreciação do Congresso Nacional. Precisamos envolver o setor produtivo, os governos municipais, os governos estaduais e o governo federal nessa discussão. Em 2003, quando se discutiu o projeto de reforma tributária enviado ao Congresso, os governos absorveram apenas as medidas positivas. As negativas estão paralisadas até hoje. Precisamos, urgentemente, de um pacto tributário, envolvendo toda a sociedade, caso contrário, não vamos ter redução de impostos no Brasil. Já são 30 anos discutindo esse tema e não se chega a lugar nenhum. Euler de França Belém — O capitalismo não é meio desorganizado por natureza? Não é isso que fomenta a competição necessária ao crescimento da economia? Mas a competição necessita de algumas regras. E essas regras são demonstradas pela política tributária. Se ela é desorganizada, os problemas do fluxo de caixa dos governos estaduais serão sempre solucionados através de novos impostos. E quem paga é a população. Afonso Lopes — Se for retirada dos Estados a possibilidade de conceder incentivos fiscais, Goiás será reduzido a uma fazenda de São Paulo. Nesse aspecto, você tem razão. Goiás está fazendo o jogo que os outros Estados estão fazendo. Os programas de incentivo fiscal são necessários. Sou a favor do Fomentar e do Produzir. Se Goiás não criar atrativos, ele não se industrializa. Mas o Brasil poderia avançar mais se tivesse reduzisse significativamente os impostos, aumentando a produção e o consumo. Para isso, precisamos fazer um pacto tributário. José Maria e Silva — Quando era secretário da Fazenda, José Paulo Loureiro observou que a guerra fiscal é imprescindível para os Estados, mas o país, como um todo, perde com ela. É um jogo de soma zero. Sem dúvida. É como acontece com o setor de serviços, em que as empresas passam a apostar num leilão de alíquotas, optando pelo município que reduzir o imposto ao máximo. Tem município que reduz a alíquota para zero por cento. Desse jeito, não tem desenvolvimento econômico. No mínimo, é preciso estabelecer parâmetros. O projeto de reforma tributária que o presidente Lula encaminhou ao Congresso não eliminava a guerra fiscal. Apenas estabelecia alíquotas mínimas. Os Estados não poderiam oferecer incentivos abaixo de 11 por cento. Mas nem isso foi aprovado. Euler de França Belém — Está sendo proposto em Goiás, pelo PT e pelo PMDB, um comitê de defesa do governo Lula. Não seria mais correto criar um comitê em defesa de Goiás diante do governo Lula? Porque as obras do aeroporto estão paradas e as rodovias estão em estado lastimável. A BR-153 é um exemplo. É importante observar que a BR-153 estava intransitável de Anápolis até Belém. Hoje, ela está com trechos problemáticos de Anápolis até Uruaçu. Euler de França Belém — Marconi Perillo conseguiu recursos do Banco Mundial e reformou a estrada de Jaraguá a Goianésia. Mas como a BR-153 está intransitável, o tráfego de caminhões pesados, que é enorme, desviou para esse trecho, que já está todo esburacado. Reconheço isso. Mas a situação já foi bem pior. O governo Lula recuperou o trecho entre Belém e Uruaçu. Agora, de Uruaçu até Anápolis, a rodovia está realmente precária. Mas o governo federal tem procurado resolver o problema. A BR-060, entre Jataí e Rio Verde, estava intransitável no final do governo Fernando Henrique. Hoje, toda a BR-060, de Goiânia até Santa Rita do Araguaia, está recomposta. A BR-364, que vai de Mineiros até o Acre, também foi totalmente recomposta. O trajeto da BR-452, que liga Itumbiara a Rio Verde, está sendo recuperado. O trecho entre Goiânia e Brasília está sendo todo recomposto. A BR-153 está sendo duplicada de Goiânia até Itumbiara. Em breve, iremos em rodovia duplicada de Goiânia a São Paulo. José Maria e Silva — Não é irracional investir tanto em rodovia? Não há rodovia que suporte toneladas de carretas. Os governos têm de pedir empréstimo para reformá-las. Por que não investir em ferrovias? Faltou planejamento estratégico ao Brasil no início dos anos 40. Em Goiás, o capitalismo chegou com a estrada de ferro entre Catalão e Goiânia. Por sinal, um capitalismo tardio. E, quando o capitalismo se expandiu para o Oeste, com a construção de Brasília, isso se deu com rodovias e não com ferrovias. Se já tivéssemos ferrovias como a Norte-Sul, o nosso processo de desenvolvimento econômico teria sido muito diferente. Mas nunca é tarde para começar. Acho que o futuro do desenvolvimento econômico no Brasil serão as ferrovias e as hidrovias. O orçamento da União tem que começar a priorizar as ferrovias. Fiz a minha parte: no orçamento do Estado, coloquei dinheiro para a construção de um trecho de ferrovia entre Rio Verde e Iporá. O objetivo é ir criando condições para ligar essa região à Ferrovia Norte-Sul e à Ferronorte. Afonso Lopes — Falta investimento em infra-estrutura. O presidente Lula queria que o Brasil crescesse 5 por cento neste ano. Vai crescer, no máximo, 3,5 por cento. E não conseguiria crescer 5 por cento, porque sua infra-estrutura não suportaria, a começar pelos portos, que já estão estrangulados. O governo Lula, nos próximos quatro anos, vai priorizar a infra-estrutura do país. Fará investimentos maciços em transporte, saneamento básico, habitação e energia elétrica. No setor de hidrelétricas, o governo acena com o sistema de parceria com a iniciativa privada. Afonso Lopes — Mas nada disso saiu do papel. Mas está evoluindo muito e já está saindo do papel. O problema é que nem sempre isso é divulgado. Daí, inclusive, a necessidade de articularmos os partidos da base aliada do governo Lula para defendê-lo em Goiás. O governo federal investiu significativamente no Estado. Mas a base de sustentação do presidente Lula em Goiás não tem conseguido capitalizar politicamente essas ações. Na área da habitação, por exemplo, os investimentos do governo federal são capitalizados pelos prefeitos ligados ao PSDB e ao PFL. O governo do Estado tem firmado parcerias importantes com a Caixa Econômica Federal, capitalizando vários projetos na área da habitação. Quando vai inaugurar programas habitacionais feitos em parceria com a Caixa Econômica Federal, a Agência Goiana de Habitação não se preocupa em avisar a direção da Caixa com antecedência. É comum o convite chegar depois da inauguração da obra. Fiquei sabendo que seriam inauguradas 240 casas em Santa Bárbara, através dessa parceria, quando liguei para a Caixa. O superintendente me disse que tinha tentado mandar pelo menos um gerente da Caixa na solenidade de inauguração das casas, representando o governo federal, mas a solenidade estava acabando, não deu tempo. Na área de eletrificação rural, por exemplo, o governo do Estado tem tido uma eficiência muito grande para capitalizar todas as ações. O Programa Luz para Todos é custeado com 90 por cento de recursos do governo federal, mas o governo do Estado apresenta o programa como se ele fosse da Celg. O governo do Estado tem demonstrado uma enorme eficiência para capitalizar politicamente a agenda positiva do governo federal. Nas nossas costas ficou a agenda negativa, como o mensalão e os bingos. Tentaram jogar nas nossas costas até os sanguessugas. Agora, o momento é outro. O próprio presidente Lula quer contrapartida política para todas as ações institucionais. O governo vai ser um governo de mão dupla: apoio vai, apoio vem. Não é a toa que o ministério não será formado enquanto não se resolver o problema da presidência do Senado e da Câmara. Em Goiás, não será diferente. O governo Alcides quer o apoio administrativo do presidente Lula? Terá esse apoio, constitucional, legal. Agora, se ele quer apoio preferencial, terá de retribuir politicamente. É uma via de mão dupla: apoio vai, apoio vem. Afonso Lopes — Qual será a contrapartida do governo Alcides? Praticamente, todos os deputados federais da base governista, excetuando-se os do PSDB, já estão na base do presidente Lula. Na prática, até alguns parlamentares do PMDB não acompanharam o governo Lula. E o PP é um partido complexo, que, nacionalmente, tem desde Severino Cavalcanti e Paulo Maluf até Alcides Rodrigues. Em Goiás, o partido tem Tião Caroço e Paulo Roberto Cunha. Toda essa base do PP no Estado fez uma oposição raivosa ao presidente Lula, devido à crise do agronegócio. Há alguns meses, o líder do PP na Assembléia Legislativa [deputado Ernesto Roller], que hoje é líder do governo na Casa, também fez um pronunciamento raivoso contra Lula. No segundo turno da eleição, estive em Rio Verde e presenciei uma manifestação bastante agressiva ao presidente da República, comandada pelo vice-prefeito de Paulo Roberto Cunha [Leonardo Veloso, do PP]. Agora, de uma hora para outra, sem qualquer autocrítica, sem rever posições, esse pessoal se torna integrante da base de sustentação do presidente Lula, exigindo atenção privilegiada do governo federal? Para se entrar numa nova composição política, o mínimo que se exige é um pacto futuro. Mas, sem qualquer tipo de compromisso, começam a dizer que o PP é da base do presidente Lula, que, por isso, o presidente tem que ajudar Goiás. O presidente está ajudando o Estado, tem muitas obras aqui. O que queremos é que isso seja reconhecido. Eles absorveram toda a agenda positiva do governo Lula. Chegou a hora de dar a retribuição. Lula não vai fazer clientelismo político, como acontecia no governo Fernando Henrique. O governo Lula é capaz de construir uma relação política institucional. O queremos é ter pelo menos o compromisso de defesa do governo. Não queremos compromisso eleitoral. Compromisso eleitoral é para daqui a quatro anos. Basta defender o governo Lula. O que não pode é alguém se dizer aliado, entre aspas, e atacar raivosamente o governo Lula nas bases. Por isso, é legítimo o deputado federal Rubens Otoni e o senador Maguito Vilela articularem uma base de defesa do presidente Lula em Goiás. Não vamos mais ser ingênuos. José Maria e Silva — O senhor mencionou que até o PMDB não fez a defesa necessária do governo Lula em todos os momentos. O PMDB é o principal aliado do presidente da República em Brasília. Em Goiás, ele errou ao não aceitar a aliança com o PT na disputa do governo do Estado, fazendo com que o senador Maguito perdesse a eleição. Dentro dos seus quadros, principalmente no sudoeste do Estado, há deputados federais beneficiados pelos programas do governo federal que, durante a crise do agronegócio, também fizeram ataques raivosos ao presidente Lula em em manifestações de produtores. Achavam que o agronegócio seria a grande mola propulsora da derrota eleitoral de Lula em Goiás. Mas isso não ocorreu. Depois da adesão do maior produtor de soja do mundo, o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, o presidente Lula ampliou sua base de apoio entre os grandes produtores rurais. Afonso Lopes — O PT passa a impressão de ter raiva de fazendeiro. A esquerda brasileira, tradicionalmente, combateu a oligarquia e o latifúndio, fazendo uma defesa sistemática da reforma agrária. Com isso, criou-se um amálgama equivocado da imagem do fazendeiro produtor com a do latifundiário improdutivo. Mas, nos últimos 15 anos, o PT conseguiu superar esse equívoco. Hoje, há setores importantes do PT ligados aos produtores rurais. Continuamos defendendo a reforma agrária, uma bandeira atrasada no Brasil. Nos Estados Unidos, ela aconteceu no século XVIII. Na França, ocorreu no século XVII. O PT deve ser um partido que defende a reforma agrária em cima do latifúndio improdutivo e não do fazendeiro produtivo. Então, na medida em que o presidente Lula acenou com uma reforma agrária ordeira, sem invasão, sem confisco de terras, a relação do governo com os grandes produtores melhorou. Euler de França Belém — O PT vai compor com o PMDB, em 2008, nas eleições para prefeito de Goiânia? Todo partido político precisa disputar eleições com candidato próprio. O PT sempre disputou a Prefeitura de Goiânia para ganhar e não será agora, quando governamos o país, que vamos abrir mão de ter candidato. Euler de França Belém — O ex-prefeito Pedro Wilson, deputado federal eleito, será o candidato? Temos vários nomes e um deles é o de Pedro Wilson. O PT administrou Goiânia de 93 a 96 e de 2001 a 2004. Fizemos ações importantes na cidade, que são reconhecidas até hoje, tanto que o ex-prefeito Pedro Wilson foi eleito deputado federal. No momento, precisamos estabelecer um bom convívio com os partidos que formam a base de sustentação do presidente Lula. E, no momento, é natural que todos pensem em ter candidato. Na hora da disputa é que se define melhor o quadro. Uma coisa é certa: o PT vai dar sustentação política ao prefeito Iris Rezende. Essa é uma decisão de partido, da direção municipal. Vamos garantir a governabilidade do prefeito junto à Câmara Municipal, independentemente das eleições de 2008. Afonso Lopes — E Humberto Aidar? Mesmo como deputado estadual eleito pelo PT, ele pode fazer oposição ao prefeito, pelo menos no discurso. O diretório municipal do PT está fazendo o que é necessário para unificar a ação do partido. O PMDB é o principal partido de sustentação do presidente Lula. Deverá ficar com quatro ou cinco ministérios e tem uma bancada significativa de deputados federais. Como o partido apóia Lula, ele solicitou ao presidente uma contrapartida em Goiânia. É um pedido justo, daí o nosso apoio. Euler de França Belém — Como ficarão os cargos federais no Estado? No primeiro governo Lula, o PT reclamava que o pessoal do PSDB continuava mandando nos cargos. Fizemos um levantamento de todos os cargos federais em Goiás. São 52 funções federais no Estado. Enviamos uma lista ao governo Lula com o perfil político de cada um dos ocupantes desses cargos. A orientação nacional é que os cargos de confiança do governo federal sejam ocupados por pessoas que defendam o governo Lula. Estamos revendo as nomeações de todos os partidos, inclusive as do PT. Pessoalmente, acho que a indicação para os cargos federais em Goiás não se deu na instância do partido, mas na esfera de influências de pessoas. Individualmente, parlamentares do PT e de outros partidos foram ocupando funções no varejo. É preciso zerar todas as nomeações e abrir uma discussão cargo por cargo, inclusive dentro do PT. Há uma desproporção na ocupação desses cargos. Eu e o deputado Mauro Rubem, por exemplo, temos uma influência significativa no PT goiano, mas não temos nenhuma influência nos cargos federais em Goiás. Queremos uma compensação de espaço e acreditamos que ela vai acontecer. Euler de França Belém — Qual será o papel de Barbosa Neto em relação ao PT? Ele foi candidato da coligação que garantiu a eleição de dois deputados federais e três deputados estaduais do PT. Barbosa Neto tem uma relação de parceria conosco. Euler de França Belém — Marconi Perillo afirma que Goiás tem 2 bilhões de reais para receber da União, devido à criação do Estado do Tocantins. Ele está convocando as forças políticas de Goiás para defender o recebimento desse dinheiro. O senhor está disposto a participar dessa cobrança? Sim. Créditos semelhantes têm sido compensados em outros Estados. Como o Estado de Goiás tem uma dívida muito grande com a União, o ideal é fazer um encontro de contas e reduzir essa dívida. É uma proposta inteligente. Euler de França Belém — O presidente Lula anunciou que Henrique Meirelles deve permanecer na presidência do Banco Central. O senhor também defende a permanência dele e de Guido Mantega na Fazenda? O presidente do Banco Central exerce um papel determinante na manutenção da política cambial e do controle inflacionário. É importante que fique. Já o ministro Guido Mantega representa uma linha mais desenvolvimentista e, ancorado numa política de controle inflacionário, vai desenvolver uma linha de fortes investimentos na infra-estrutura do país. O segundo governo Lula será um governo desenvolvimentista. Euler de França Belém — José Dirceu e Delúbio Soares já são uma face do passado do PT? O ex-ministro José Dirceu teve um papel muito importante na construção do PT e na articulação do governo Lula, assim como Delúbio Soares. Ambos foram vítimas da crise política, porque estiveram no centro dela. Mas o PT sobreviveu a isso tudo. Hoje, a influência do núcleo paulista no partido já não é tão grande como antes. Outras pessoas passaram a ocupar aquele espaço que era ocupado por José Dirceu, Aloízio Mercadante e Martha Suplicy. Euler de França Belém — O PT pode apoiar Ciro Gomes para presidente da República em 2010? O ministro Ciro Gomes tem uma experiência administrativa importante. Foi deputado estadual, prefeito de Fortaleza, governador do Ceará e ministro da Fazenda do governo Fernando Henrique. Foi um dos articuladores e implementadores do Plano Real. Posteriormente, ele se tornou um grande colaborador do presidente Lula e, no Ceará, deu ao presidente uma de suas maiores vitórias proporcionais. É um dos nomes que podem ser colocados à disposição do PT e dos nossos aliados em 2010. Euler de França Belém — O PT, agora, é um partido de centro? O PT é um partido democrático, que tem uma convicção de esquerda e defende o socialismo. O PT confronta o autoritarismo. É, talvez, um dos partidos mais democráticos do Brasil. Tanto que ele explicita claramente as suas divergências internas. Também é o partido mais atacado pela mídia na história do Brasil. Quando o presidente Vargas viveu toda a crise que culminou com o seu suicídio, o povo foi quem o defendeu nas ruas. O mesmo aconteceu com o presidente Juscelino, quando ele enfrentou a velha UDN e as oligarquias. Tanto Getúlio quanto Juscelino desenvolviam políticas de defesa do povo trabalhador. O presidente Lula também desenvolve ações políticas em benefício dos excluídos e também enfrentou a reação de setores importantes da mídia. Foram 22 meses de confronto. Lula se manteve firme e, a exemplo de Vargas e Juscelino, também teve o reconhecimento popular, só que através do voto. No segundo turno, ele teve todos os votos de Heloísa Helena e de Cristovam Buarque e ainda conquistou 2,5 milhões de votos de Geraldo Alckmin. Temos que repensar o papel da mídia brasileira e sua relação com os governos do PT. José Maria e Silva — Getúlio foi um ditador sanguinário, que torturou oposicionistas e prendeu Graciliano Ramos, durante meses, sem processo, entre criminosos comuns. E moveu uma guerra fratricida contra São Paulo, em 1932, que matou, feriu e desabrigou milhares de pessoas. Talvez tenha sido pior do que Augusto Pinochet, no Chile. Por que a esquerda gosta tanto de ditador populista? Se o facínora faz agrados demagógicos ao povo, como Vargas, recebe licença da esquerda para torturar e matar. Construímos o PT repudiando a ditadura militar no Brasil, a de Pinochet no Chile e criticando o governo autoritário de Getúlio Vargas. Agora, Vargas teve um forte apoio popular e fazia um governo com forte teor nacionalista. Quando Lula faz referências a Getúlio, é em função da reação das oligarquias agrárias e da velha UDN contra ele, algo muito semelhante ao que o próprio Lula enfrentou nos dois últimos anos de seu governo. Euler de França Belém — Qual a posição do PT na eleição para a presidência da Assembléia Legislativa? Estamos conversando com todos os candidatos. Formamos um bloco, juntamente com PMDB, PDT e PSC, que já conta com 13 parlamentares. É um bloco significativo. Estamos defendendo a velha proposta de mudança do regimento interno para que a Assembléia Legislativa recupere a sua autonomia. Também defendemos a urgente atualização da Constituição do Estado. José Maria e Silva — O senhor defende uma proposta para o Plano Diretor de Goiânia. Como é essa proposta? A Constituição do Estado estabelece que a Assembléia Legislativa deve elaborar o plano diretor das regiões metropolitanas do Estado. No caso, o Aglomerado Urbano de Goiânia e o Entorno de Brasília. Os municípios que integram essas regiões não podem elaborar um plano diretor isoladamente. Os problemas vividos por eles se entrelaçam nas áreas mais diversas, como saúde, educação, transporte, habitação e meio ambiente. Daí a necessidade de um plano conjunto.