Entre Maquiavel e Paulo Coelho, os deputados não leem tanto
Publicado 16/02/2013
Marcos Nunes Carreiro
Dizem que literatura e política concomitantemente se misturam. É fácil achar escritores traçando conceitos para a política e não menos raro ouvir políticos levando à boca famosos trechos literários (muitos erroneamente). Ler ajuda na formação da retórica tão útil aos homens públicos, assim como fornece o conhecimento necessário à arte política.
A leitura é uma importante ferramenta para o desenvolvimento intelecto-social do ser humano. A leitura, como apontou a teórica Adriane Andaló, “não é uma simples prática escolar, mas um processo desencadeado pela vontade, ou necessidade, do leitor em compreender os textos que estão à sua volta”, visto que ler expande a mente.
E como declarou um deputado estadual goiano ao Jornal Opção, citando Einstein: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. Já foi dito que é simples ver políticos citando grandes escritores e diante de tal declaração de um parlamentar goiano, é certo de que nos surge a pergunta: o que os deputados estaduais de Goiás leem?
Foram 17 deputados a responder à pergunta “qual livro foi mais importante em sua formação intelectual?”, mesmo que a Assembleia Legislativa esteja de recesso parlamentar até o próximo dia 18. Veja quais e que livros eles apontaram como os melhores em suas opiniões, sempre tentando ressaltar a importância da literatura goiana em sua trajetória:

Álvaro Guimarães (PR):
Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de São Carlos, o deputado apontou “O príncipe”, de Nicolau Maquiavel, como o livro mais marcante em sua trajetória pessoal e política. “Acredito que todo político já tenha lido esse livro, pois por ele é possível ter uma noção mais profunda do que são política e democracia”, disse o parlamentar. Sobre a literatura goiana, porém, o deputado disse não ter um livro marcante. “Já li alguma coisa, mas não tenho um marcante para apontar.”
Bruno Peixoto (PMDB):
Advogado e economista, Bruno Peixoto creditou seus autores marcantes à sua formação acadêmica em economia. Para ele, “O Capital”, de Karl Marx, foi fundamental para entender a formação do Estado, verificar os pontos falhos e críticos do sistema e ver a realidade onde há o encontro entre capitalismo, socialismo e a sociedade. “O conhecimento é importante não apenas para o deputado, mas também para qualquer agente público.” Bruno também não apontou nenhum livro de autores goianos como marcante.
Carlos Antonio (PSC):
Para o radialista Carlos Antonio, “O Alquimista”, de Paulo Coelho, e “Leite derramado”, de Chico Buarque, foram as obras mais importantes em sua vida. “‘O Alquimista’ trata de uma história interessante de busca e objetivos. E ler Chico Buarque é muito bom. Gosto da escrita do autor e das palavras que ele usa. Aproveito seu vocabulário em meus discursos”, declarou. A respeita de Goiás, o deputado falou: “Aprecio a poesia goiana [Cora Coralina], mas, fora ela, não tenho muito apego à literatura goiana”.

Daniel Messac (PSDB):
Formado em Filosofia e Teologia, Daniel Messac disse que seu livro favorito é “Vencendo os gigantes”, do escritor Jorge Linhares. “É um livro antigo que fala sobre a cultura social, além de ser um grande motivador nas dificuldades e crises mundiais. Ele me serviu de estímulo para o dia a dia”, relatou. O deputado disse não ter nenhum livro goiano de sua preferência.

Daniel Vilela (PMDB):
O novato Daniel Vilela falou que o livro mais marcante durante sua formação foi “Os miseráveis”, do francês Victor Hugo. Segundo ele, o gosto pela obra veio por influência de seu avô.

Elias Júnior (PMN):
Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), o deputado disse que o livro que marca é a Bíblia. Fora ela, disse não ter mais nenhuma obra de influência em sua carreira.
Francisco Júnior (PSD):
O advogado e urbanista Francisco Júnior disse que gosta de ler biografias como a do estadista britânico Winston Churchill e a do empresário Steve Jobs. Mas, para ele, os livros mais importantes foram “O Monge e o Executivo”, de James Hunter, e “O perfume”, de Patrick Süskind. “Já li essas obras há alguns anos, logo que entrei na vida pública, mas foram importantes para mim.” Na literatura goiana, o parlamentar afirmou que se identifica com “Veias e Vinhos”, do autor Miguel Jorge. “Fui criado na rua 74, a rua onde ocorreu a chacina de que trata o livro. Além disso, conheço o escritor”, declarou ele.

Frederico Nascimento (PSD):
Frederico Nascimento, advogado, relatou preferir as biografias do presidente Juscelino Kubitschek e do governador goiano Mauro Borges. “Juscelino foi um grande presidente por ter sido desenvolvimentista. Foi ele o responsável por trazer desenvolvimento para Goiás com a construção de Brasília, assim como Mauro Borges, que criou a Secretaria do Planejamento e mudou a histórica política de Goiás”.

Helio de Sousa (PSDB):
O médico Helio de Sousa disse não ter nenhum livro marcante em sua formação.
Isaura Lemos (PC do B):
Em seu quarto mandato como deputada por Goiás, a paulista Isaura Lemos afirmou estar em “O Capital”, de Karl Marx, e nas obras do russo Vladimir Lenin, sua maior base de conhecimento. “Penso que a leitura reflete muito na formação política. Hoje existe quase um canibalismo político e isso não pode existir. O agente precisa convencer com o conhecimento e com a experiência de vida para conquistar apoio e liderança política. Hoje em dia existe a falta de estratégia, pois nosso inimigo não é o povo, e sim os banqueiros que só querem o lucro”, disparou ela. Sobre a literatura goiana, Isaura disse que sua obra favorita é “O Tronco”, de Bernardo Élis.

José Vitti (DEM):
Para o advogado José Vitti não há nenhum livro que tenha marcado sua formação política, mas livros que o influenciaram em sua trajetória como pessoa. “O encantador de vidas”, de Eduardo Moreira, e “O príncipe”, de Nicolau Maquiavel, são as obras marcantes para o deputado. “Esses livros me trouxeram visão de mundo como pessoa. A política foi consequência.”,
Luis Cesar Bueno (PT):
O deputado petista, que também é professor de história graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), descarregou inúmeros nomes de livros como importantes em sua formação, mas conseguiu resumir seu gosto em apenas alguns. “Minha Razão de Viver”, de Samuel Wainer, “Estado, Governo e Sociedade”, de Norberto Bobbio, e a “Terceira Onda”, de Alvin Toffler. “Esses livros foram importantes para compreender o processo de formação da democracia e do Estado democrático no Brasil”, disse. Na literatura goiana, o deputado afirmou que os escritos “do saudoso pe. Luís Palacín Gomez foram importantes para sua formação. “O pe. Luís Palacín era espanhol e recebeu o título de cidadão goiano. Ele escreveu a história de Goiás quando percebeu que os goianos não a escreviam. A gente falava muito de barroco paulista, mineiro, baiano, etc. e ele disse que havia barroco em Goiás, mas que não era feito por grandes artistas, como em outros lugares e sim por escravos, que faziam construções autodidatas, como o barroco de Pirenópolis, por exemplo. É um depoimento muito interessante acerca da história goiana.”

Luiz Carlos do Carmo (PMDB):
Segundo o deputado Luiz Carmo do Carmo, não há nenhum livro importante em sua formação.

Major Araújo (PRB):
Para o militar Júnio Alves Araújo, o livro “O monge e o Executivo”, de James Hunter, e “O código da inteligência”, de Augusto Cury, foram as obras marcantes. O major disse não ter uma obra específica goiana da qual goste mais a não ser as poesias de seu cunhado Almaquio Bastos Filho.

Talles Barreto (PTB):
Formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), o parlamentar apontou “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel, como a mais importante em sua formação política. Na literatura goiana, Talles disse que gosta do autor Miguel Jorge não só por sua escrita como também por ter amizade com ele.

Valcenôr Braz (PTB):
Administrador, Valcenôr Braz dedicou a Antoine de Saint-Exupéry, autor de “O pequeno príncipe”, sua devoção literária. Para ele, a “simplicidade e as palavras fáceis tornam a obra magnífica e fundamental, pois ela não só enriquece como facilita o linguajar e dá novos conhecimentos ao leitor”. Contudo, nenhum autor goiano dividiu com o francês as glórias do parlamentar.
Wagner Siqueira (PMDB):
O peemedebista se diz viciado em biografias. “As biografias são a história real da vida humana. Já li várias obras assim, mas como principais indico a dos presidentes Nelson Mandela, Bill Clinton e José Sarney, assim como a de alguns esportistas como o treinador de vôlei Bernardinho e do jogador de basquete Oscar Schmidt”, afirmou. No campo goiano, o parlamentar se lembrou de que “os versos da poetisa Cora Coralina foram primordiais, principalmente, na juventude. Leitura é cultura e a cultura em geral, expande a mente e a capacidade mental”, pontuou o deputado.
“A falta de leitura é reflexo da péssima educação brasileira”
Em um país onde a leitura não é valorizada seria injustificável afirmar que os políticos são pessoas com vasto conhecimento cultural. Alguns realmente são, mas outros, obviamente, não. E num mundo literário em que grandes nomes são citados, como Nicolau Maquiavel e Victor Hugo, mas em que aparecem outros de menor expressão intelectual, como Paulo Coelho e Augusto Cury, a reportagem recorreu a cientistas políticos e historiadores para indicar quais os livros deveriam, obrigatoriamente, serem lidos pelos políticos.
O historiador Nasr Chaul indicou um conjunto de obras para os deputados goianos lerem. Ele dividiu as obras indicadas como conhecimento sobre a história goiana e conhecimento político. “Alguns [livros] são para conhecimento básico do processo histórico goiano, tanto por autor quanto por obra. Outros são para conhecimento da própria casa legislativa que vão dirigir. Outros sobre cultura goiana, um mínimo significativo”, justificou. Os livros indicados por Chaul são:
“História da terra e do homem no Planalto Central”, de Paulo Bertran; “O século do ouro em Goiás”, de Luís Palacín Gomez; “História de uma oligarquia: os Bulhões”, de Maria Augusta Sant’anna de Moraes; “Poder e paixão: os Caiado de Goiás”, de Lena Castelo Branco de Freitas; “Caminhos de Goiás: da construção da decadência aos limites da modernidade”, de Nasr Fayad Chaul; “Assembleia Legislativa de Goiás: o olhar, a voz e a casa de um povo”, organizadores Marcelo Sáfadi e Sandro Sáfadi; “Dicionário do Brasil Central”, de Bariani Ortêncio; “Geografia socioeconômica de Goiás”, de Horieste Gomes; “O legislativo em Goiás” (Volumes. 1, 2 e 3), de Francisco Itami Campos e Arédio Teixeira; além das obras completas de Hugo de Carvalho Ramos, Bernardo Élis e José J. Veiga.
Já o historiador Ademir Luiz da Silva, professor na Universidade Estadual de Goiás (UEG), declarou que, apesar de ser moda exaltar o que chamam “pretensas boas intenções” como algo mais importante do que a formação cultural dos políticos brasileiros, não concorda com essa visão. “Vendo as centenas de postagens apologéticas acerca da atuação parlamentar do ‘assíduo’ deputado [federal] Tiririca nas redes sociais, discordo totalmente dessa perspectiva da boa intenção. Acho estranhíssimo representantes públicos demonstrarem orgulho de própria ignorância e usarem isso como bandeira. Como Sérgio Paulo Rouanet demonstrou em ‘As razões do iluminismo’, a erudição é desprezada no Brasil. O ‘elitismo’, no sentido de possuir altos padrões éticos e culturais, é considerado mera soberba.”
Para ele, mesmo os líderes populares, oriundos das esferas mais pobres da população, deveriam se preocupar com sua formação cultural. “Por um motivo muitos simples: o verdadeiro líder popular é aquele que ascende moral e culturalmente a média de sua classe de origem, seja ela qual for (o mesmo vale para um burguês ou aristocrata), sem abandonar seus valores fundamentais. Via de regra, sem generalizar, o que se vê no Brasil é algo totalmente diverso. Líderes burgueses que mantêm a baixíssima média de leitura do restante de sua classe e líderes populares que, subindo de vida, muitas vezes graças a sua militância política, passam a consumir como burgueses, usando ternos finos e consumindo bebidas caras, sem se preocupar em aproveitar as novas oportunidades que angariou para ganhar certo verniz cultural. Mal comparando, é o mesmo caso do atleta brasileiro que vai atuar na Europa, mas leva o Brasil na mala. Não visita um museu sequer, mas promove feijoadas e rodas de samba para os agregados que importou da ‘Terrinha’”, analisa Ademir.
Assim, ele indicou aqueles que deveriam ser os “livros de cabeceira” de um político: biografias de grandes estadistas, como Napoleão, Roosevelt, Lincoln e, principalmente, a autobiografia de Churchill; “Os heróis”, do historiador inglês Paul Johnson; “Homens em tempos sombrios”, da filósofa Hannah Arendt; “O fim da Utopia”, de Russell Jacoby; e “O fim da história e o último homem”, de Francis Fukuyama. E para provocar ainda mais o conhecimento dos políticos, o professor declara: “Acho que esse número de páginas é o suficiente para ocupar os quatro anos de mandato. [Os deputados] Não precisam se preocupar muito em ler Maquiavel ou Rousseau. No tempo que gastariam com eles, podem assistir futebol ou ver novela. Talvez possam ler por diversão.”
O ex-governador Irapuan Costa Júnior pontua que a falta de leitura não é um problema apenas dos políticos, mas reflexo da péssima educação brasileira. “Temos uma péssima educação nos três níveis, o que não acontece nos países mais adiantados, onde há um estímulo à leitura nos três níveis, o que mostra a importância da leitura. Aqui, ela passou a ser deixada de lado com o advento com a TV e da internet. E não houve a contrapartida da escola. Então, temos o adulto com uma formação superficial de TV e de internet. E quando se lê, temos os livros de autoajuda, que não é uma leitura cultural. Todos os problemas brasileiros hoje estão sendo discutidos com superficialidade. Não há planejamento, que é também uma deficiência de cultura técnica e falta de leitura.”
Segundo Irapuan, as obras primordiais para a leitura dos caros parlamentares são: “Os Sertões”, de Euclides da Cunha (que trata da história brasileira); “Bandeirantes e pioneiros”, de Vianna Moog, (para ver como o Brasil era antes); “Brasil de Getúlio a Castello”, de Thomas Skidmore, (que é um retrato político dos últimos 50 anos); a Biografia do Carlos Lacerda, de Foster Dulles (para ver como a política brasileira se desenvolveu); os livros do jornalista e escritor Elio Gaspari (quatro volumes); “A verdade sufocada”, do coronel Brilhante Ustra (que trata do período de regime militar); “Democracia na América”, de Tocqueville (que traz a cultura democrática, fala de como se desenvolveu o sistema democrático)”.