Câmara de Goiânia – Rebeldia deixa Paço em alerta
Publicado 25/02/2013
A rebeldia de alguns vereadores petistas logo na primeira sessão de votações na Câmara de Goiânia, na semana passada, ligou o sinal de alerta dentro do PT. O problema surgiu quando três dos quatro vereadores petistas votaram contra a manutenção do veto do prefeito Paulo Garcia (PT) à redução da carga horária de servidores da saúde. Djalma Araújo, Felisberto Tavares e Tayrone Di Martino declaram que votariam contra. No fim das contas, o último voltou atrás e acompanhou a maioria que manteve o veto.
Auxiliares da Prefeitura dizem que o problema foi pontual e não mostra fragilidade nas relações entre prefeitura e Câmara, mas caso os rebeldes persistam no confronto com a base de apoio do prefeito, os parlamentares poderão ser punidos disciplinarmente pela executiva partidária. O presidente metropolitano do PT e deputado estadual Luis Cesar Bueno diz que ainda é cedo para falar em punições, mas que o partido não vai entregar ao Executivo o desgaste de ter de lidar com cada vereador individualmente.
Bueno acredita que a falta de liderança da bancada pode ter prejudicado a harmonia durante a votação. “O líder define o rumo e a bancada tem de seguir. Caso algum integrante não acompanhe a orientação, a consequência é abertura de processo interno, mas já estamos pautados para discutir esse assunto no próximo mês.” O presidente conta que já convocou os vereadores para fechar a fidelidade partidária, mas que não vai interferir na escolha do líder do PT no Legislativo municipal.
O petista admite que existe um histórico de divergências na Câmara (veja quadro) e também dentro do partido, que, inclusive, se subdivide em diversas correntes, mas nunca ocorreu um conflito durante votações importantes. “A bancada do PT não atuará dividida”, reforça. Segundo o deputado, não houve reclamação formal do prefeito quanto ao desencontro na Câmara, e que o partido é muito rígido quanto à fidelidade partidária. Até lá, Bueno espera que já tenha sido fechada a escolha do líder do partido na Casa.
No sexto mandato e com histórico de ter sido líder em outras oportunidades e nem sempre votar em conjunto com o Paço Municipal, Djalma Araújo acredita que desta vez não será fácil escolher o comandante petista na Câmara. Para ele, muitos egos estão em jogo. “A base do prefeito na Câmara é boa, prova disso é que aprovou praticamente todos os projetos. O problema é querer colocar vereadores em conflito com as categorias que representam.”
O mesmo pensamento é defendido por Felisberto Tavares, que justificou o voto contrário ao Paço por ser sindicalista e defender os trabalhadores. “Acredito que a bancada deve fechar acordo para não haver desgastes. Não fiquei satisfeito em contrariar o partido, mas acredito que a gestão municipal é madura para entender que um fato como aquele não vai estremecer a base.” Ele diz que está afinado com o prefeito, e que não houve pressão em razão de sua decisão.
Nem mesmo a oposição acredita que seja possível tirar, somente deste fato, as conclusões de como vão ser as votações daqui para frente. “Houve um marasmo na hora da votação do veto, além de confusão dos interesses, mas não vejo problemas políticos neste momento e sim decisões precipitadas em consequência da pressão popular, o que não é comum nas votações da Casa”, destaca Anselmo Pereira (PSDB).
E já nos próximos dias, depois que todos os vetos da Prefeitura forem apreciados e começarem as votações em plenário, outros projetos podem, novamente, dividir a base. Um deles é a desafetação de uma rua no Setor Coimbra para expansão de um supermercado. Mas o mais polêmico, cuja discussão foi interrompida no fim do ano passado, é a revisão do Plano Diretor. O projeto retornou ao Executivo para ser reavaliado antes de entrar em votação, mas alguns vereadores já avisaram que, se não forem realizadas audiências públicas e todos os pontos estiverem bem claros, não vão aprovar a reforma.
Comportamento de Paulo incomoda aliados
Se por um lado parte da base do prefeito na Câmara começou o ano dando sinais de rebeldia, por outro os próprios vereadores contam que a relação com o chefe do Executivo não tem sido das mais harmoniosas. Auxiliares e vereadores que convivem com o prefeito Paulo Garcia (PT) contam que ele tem cobrado de forma bastante enérgica, até ríspida, o apoio de sua base, ao ponto de gerar reclamações por uma suposta falta de diálogo.
No episódio do veto ao projeto de redução da carga horária dos servidores da saúde, em uma reunião convocada às pressas, um dos participantes contou que dois vereadores tiveram de se calar para não esquentar ainda mais o clima com o prefeito, insatisfeito com as divergências. Para evitar mais comprometimentos, ninguém da equipe do prefeito quis engrossar o coro de reclamações.
No entanto, o principal aliado do governo municipal, o PMDB, acena que está satisfeito com as escolhas do prefeito se mantendo fiel. A decisão de colocar a vereadora Célia Valadão (PMDB) como líder do prefeito na Câmara, somada ao apoio para eleger Clécio Alves presidente da Câmara, estreitou ainda mais a relação do petista com o PMDB. Célia comprou a briga do veto com os servidores no plenário da Casa e chegou a ouvir xingamentos vindos da plateia, mas mesmo assim não recuou.
Tal escolha é apontada como o estopim para o comportamento rebelde de pelo menos um petista. Tayrone Di Martino disse que acreditava na possibilidade de assumir a liderança, mas foi preterido. Ele afirma que a decisão inicial de votar contra o prefeito não tem relação com a escolha, mas sim com a intenção de defender as categorias que acredita serem menos privilegiadas. “Depois eu vi que havia ilegalidade no projeto, e preferi mudar minha posição e manter o diálogo aberto entre os trabalhadores e o prefeito.”