A esquerda como alternativa política
Publicado 28/05/2000
A humanidade chega ao final do segundo milênio da Era Cristão marcada por incertezas, paradoxos e contrastes. Mais do que nunca, as energias anímicas das possibilidades luminosas para alguns e da degradação e do desespero para muitos, convivem em polaridades inconciliáveis nas várias faces dos assuntos humanos. A equação não parece mais ser "civilização ou barbárie". Civilização e barbárie estão destinadas, não a se excluir, mas a conviver num mundo fragmentado em todos os sentidos. De um lado, estão os detentores de direitos, cidadania, segurança, bem-estar, riqueza, os desfrutadores da técnica, do saber, dos bens de consumo globalizados, etc.
De outro, estão os deserdados do bem-estar, os que ficam à margem da estrada do progresso, os sem-direitos, os sem-cidadania, os sem-emprego, os sem-capacidade de consumo, os sem-conhecimento, etc. Em suma, todos aqueles seres humanos que vivem os horrores da miséria, da forme, da exclusão, da violência, da falta de oportunidades e da ausência de esperança. A esquerda chega ao término do século 20 acumulando derrotas em várias frentes. Na frente teórica, por conta da inconsistência de predicações, dogmas e utopias de seus principais representantes intelectuais. Na frente política, pelo fracasso dos Estados socialista-comunistas, em viabilizarem formas sociais mas avançadas do que aquelas que se constituíram no capitalismo europeu-americano-japonês. Na frente ideológica-moral, pelo fato de muitos
Estados e partidos de esquerda terem usado métodos autoritários e totalitários inviabilizando um projeto de socialismo democrático. Não raras vezes, os métodos dos Estados comunistas produziram milhões de mortes, prisões, desterros e banimentos. Após esses fracassos e derrotas e da grande ofensiva liberal, que consagra o capitalismo como o sistema mais desenvolvido e civilizado da humanidade, a esquerda vive uma fase de reconstrução na tentativa de constituir-se como uma alternativa democrática e reformadora. A imensa tarefa de reconstrução não será fácil e demandará décadas. Somente os partidos e lideranças que souberem ter paciência e denodo poderão estar destinados a escrever novas páginas de glórias para a esquerda política.
È preciso reconhecer que em ambos os sistemas que se confrontam no século 20, capitalismo e comunismo, nem tudo foi civilizado e nem tudo foi barbárie. No mundo não desenvolvido, porém, o capitalismo deixou um legado de exclusão, de exploração e de indignidades. A esquerda precisa encontrar outra alternativa, que se diferencie tanto do capitalismo como do comunismo autoritário. Alternativa democrática, humanística, libertaria e pacífica que rompa definitivamente com a "segunda onda", o industrialismo, e que desenvolva um projeto visando a "terceira onda", da Revolução do Conhecimento, que a partir dos anos 80 impôs uma séria de transformações tecno-científicas, na economia, nas relações de trabalho, nas comunicações, na genética, na medicina, etc, mas que, lamentavelmente, não conseguiu profundas transformações na política e no aparelho do estado, que continua preso ao clientelismo, ao fisiologismo e aos dogmas da República Velha.
A esquerda jamais será democrática, e também não será verdadeiramente igualitária, se não partir do pressuposto de que o ideal da liberdade deve se constituir no valor supremo de qualquer sistema político. Isto posto, a esquerda deve reconhecer o caráter conflitivo da natureza humana, o pluralismo de desejos, interesses, ideais, valores, etc, e a conseqüência expressão plural da vida política das sociedades. A opção democrática da esquerda implica que se adote as mediações institucionais como forma essencial de equacionamento dos conflitos sociais humanos.
Deste ponto de vista a paz deve ser um valor irrenunciável da esquerda para que a humanidade siga a seta do desenvolvimento civilizatário. A busca da igualdade e a solidariedade são os valores que diferenciam a esquerda dos outros agrupamentos políticos-ideológicos. São estes valores, situados no horizonte almejável, que alimentam as nossas lutas políticas e sociais cotidianas. Luis Cesar Bueno é vereador.