DISCURSO PROFERIDO PELO NOBRE DEPUTADO LUIS CESAR BUENO, NA SESSÃO SOLENE DE ENTREGA DE TÍTULO DE CIDADÃ GOIANA À SENHORA SÔNIA MARIA BORGES, REALIZADA NO DIA 16 DE MAIO 2011

Publicado 16/05/2011

 Deputado Estadual, amigo, Francisco Gedda, que neste momento exerce a Presidência do Poder Legislativo do Estado de Goiás;

 

Senhora Cilene Guimarães, ex-Deputada Estadual, amiga de convivência em muitas ações aqui no plenário da Assembleia Legislativa, agradecemos sua presença como Assessora Especial, representante do Doutor Marconi Ferreira Perillo Júnior, Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de Goiás.

 

Pastora Sônia Maria Borges, homenageada com o Título de Cidadã Goiana. Com certeza, pastora Sônia, o Poder Legislativo do Estado de Goiás sente-se honrado de, a partir de hoje, a senhora, com um documento de título e de lei, ser a mais nova cidadã do Estado de Goiás.

 

Desembargador Paulo Teles, aqui neste ato representando o Poder Judiciário do Estado de Goiás;

 

Conselheira Maria Teresa Fernandes Garrido, representante do Tribunal de Contas dos Municípios;

 

Senhor Renato da Cunha Rassi, representante do Senador Cyro Miranda;

 

Senhor João Wanderley de Ávila, representante do Senador Demóstenes Torres.

 

Meus amigos e minhas amigas, primeiramente queremos agradecer a presença de todos vocês, a Deus, por ter dado esta oportunidade neste momento solene.

 

Com três mandatos de Deputado Estadual, dois mandatos de Vereador em Goiânia, confesso a todos vocês que eu tenho tido muito critério em conceder medalhas de honra ao mérito, títulos de cidadania. Talvez, nestes cinco mandatos, o quantitativo de homenagens com título de cidadania que conferi nesta Casa não caiba nos dedos das mãos, foram muito poucos.

 

E hoje me sinto extremamente grato de saber que estamos aqui na sede do Poder Legislativo não para homenagear um político, para homenagear um grande empresário, para homenagear uma pessoa com grande status dentro da sociedade, estamos aqui para conferir o título de cidadã a uma pessoa que fica nas ruas, a uma pessoa que trabalha com mendigo, com o trabalho de combate ao mundo das drogas, que procura dar qualidade de vida para os excluídos e os mais necessitados.

 

Conheci a pastora Sônia no ano 2000, quando ainda era Vereador, e vi a sua aflição e as dificuldades que ela enfrentava para manter uma casa de passagem, de assistência para pessoas em situação de rua, em frente à antiga sede da Secretaria de Segurança Pública, aqui no antigo Bairro Popular, hoje centro de Goiânia. Presenciei e vivi a sua dificuldade.

 

Posteriormente, fizemos na Câmara Municipal um grande café da manhã, onde tivemos a oportunidade de colocar todas as pessoas em situação de rua, tirando-as dos abrigos, das pontes, e fizemos um grande café da manhã na Câmara Municipal de Goiânia. Surgiu naquela época o Projeto Metamorfose, grande referência da pastora Sônia, que a partir daquele momento iniciou todo um trabalho numa unidade feminina e numa outra unidade masculina, de fazer o enfrentamento ao mundo das drogas, de fazer o enfrentamento a todo o processo de exclusão social na rua.

 

Não esqueço uma frase da pastora Sônia, quando numa discussão sobre o alcoolismo, ela disse o seguinte: “Tenho pessoas em situação de alcoolismo que uma garrafa de pinga ou cachaça não resolve o problema, só se fosse um litro de álcool, e às vezes, no desespero, cheguei até ao posto de gasolina, tamanho é o desespero, a pessoa morre na seqüência”.

 

E ela com seu jeito simples, missionário, e foi convivendo com essa realidade, com a fé cristã que lhe é peculiar, pedindo a todos e a todas, foi convivendo com essa situação, combatendo o alcoolismo, combatendo as drogas e dando conforto às pessoas de situação de rua.

 

Então, fico muito satisfeito de o Poder Legislativo do Estado de Goiás trazer das ruas uma pessoa que trabalha com aqueles que estão na exclusão total da sociedade, porque não estamos aqui falando do sem-teto, do sem-comida, estamos aqui falando do sem-identidade, sem-título de eleitor, e convivendo com essas pessoas em situação de rua, existem alguns que nem lembram o nome, não sabem onde nasceram, esqueceram a sua cidadania, vegetam pelas ruas. E na omissão do Estado, meu Presidente, Deputado Francisco Gedda, Conselheira Doutora Sandra Garrido, Desembargador Paulo Telles, ex-Deputada Cilene Guimarães, na exclusão da noite nas ruas, muitas vezes a pastora Sônia, sem nenhum tipo de apoio, faz o papel do Estado, acaba fazendo o papel do Estado diante da omissão do Estado, do Município, e até mesmo do Governo Federal, em prestar uma assistência direta às pessoas em situação de rua.

 

Através de um trabalho que ela fazia, conseguimos fazer uma casa de passagem na Estação Rodoviária, num posto da FUNDEC, que posteriormente foi desativado, e a luta continuou, ela cresceu com o Projeto Metamorfose, que atende hoje a uma quantidade muito grande de pessoas, e nós estamos aqui, neste momento, para homenagear a sua luta, num momento em que ela vai para a Noruega, vai seguir uma formação, e neste momento estará saindo daqui como cidadã goiana.

 

Mas, a sociedade está em constante processo de evolução, a cada dia que passa o mundo se transforma ainda mais, atualmente, determinadas transformações que antes levavam meses, hoje podem ser feitas em poucas horas. Vivemos num planeta globalizado, tomado pelo conhecimento, pela Internet, o mundo da cibernética, do mundo evoluído, da produção de seres vivos, repleto de indústrias, de novas tecnologias, bens de consumo, cidades, regiões metropolitanas e os problemas que as grandes cidades trazem para a pessoa humana, também.

 

Considerando esse panorama, nos encontramos diante de um grande problema ou absorvemos o mundo moderno com todas as suas novidades e tecnologias e trabalhamos em busca da melhoria da nossa qualidade de vida ou nos entregamos aos traumas da sociedade contemporânea, à substituição do homem pela máquina, à verdadeira desvalorização do ser humano, e somos consumidos pelos vícios e pelos desgostos da era moderna.

 

Quando somos privilegiados, conseguimos enxergar maravilhas nesse admirável mundo novo, nas inovações tecnológicas e no grande processo de inovação tecnológica das metrópoles. Mas hoje, nesta noite, nesta Sessão Solene do Poder Legislativo do Estado de Goiás, eu olharei para o outro lado. O lado daqueles que não tiveram privilégio algum e que mergulharam na marginalidade, porque estão literalmente à margem da sociedade.

 

Nesta noite, quero abordar o tema do mundo das drogas, da violência urbana contra as pessoas. O mundo dos pedintes, dos mendigos, dos viciados, daquelas pessoas que estão nas ruas e às vezes não encontram o devido apoio, não têm um teto e nem um banho quente. Quero lembrar daqueles que às vezes não têm nem sequer um pedaço de pão, não têm o que comer, o que vestir, o que calçar. E o pior: não têm uma voz para contestar, porque foram calados não só pela sociedade, mas em muitas vezes pelo próprio Estado.

 

Essa mesma sociedade, tão encantadora aos nossos olhos e repleta de possibilidades, pode ser incrivelmente rude com os indigentes. Algumas pessoas estão tão traumatizadas que não lembram nem sequer o seu nome, onde nasceram ou quem foram seus pais. Não lembram de seus direitos garantidos pela Constituição. Para essas pessoas, o fim do mundo não é nada mais do que a própria realidade.

 

Quando Vereador de Goiânia por duas legislaturas, a primeira em 1996 e a segunda em 2000, convivi com a pastora Sônia. Nessa época resolvi focar o nosso mandato na defesa desses excluídos. Eu quis ver de perto a real situação dos moradores de rua da Capital goiana. Percebi que o verdadeiro amparo na calada fria da noite, às vezes não chega pelo Estado, chega das instituições evangélicas, dos pastores, das instituições católicas, dos movimentos da sociedade civil organizada, da Maçonaria e das organizações não governamentais de cunho religioso ou não, que vão no fronte da madrugada enfrentar a crise e dar o devido apoio aos moradores em situação de rua.

 

Nos primeiros dias eles pedem esmolas pra comer. Essa é a realidade de um retirante que fica nas imediações da Rodoviária de Goiânia. Nos primeiros dias eles pedem esmolas para comer, passado um mês a esmola já não é mais para comer, é para beber, como anestesia da realidade. Após alguns meses esse dinheiro dá para se drogar, e dá para esquecer totalmente a vida que levava. Esta e a realidade dos desajustados que vivem pelas ruas de Goiânia e de todo o Brasil. Foi neste contexto que conheci em 1999 a pessoa de Sônia Maria Borges, hoje conhecida como pastora Sônia, uma sul-mato-grossense de 46 anos. Nesta época com muitas dificuldades, ela já amparava e cuidava de dezenas de desacreditados socialmente em uma casa de apenas dois quartos, localizada em frente à antiga Secretaria de Segurança Pública, no centro desta cidade. Admirei o seu trabalho, pois zelava dessas pessoas sem qualquer tipo de apoio material, combatia um fantasma que assombrou por anos o triste vício das drogas decorrentes da prostituição e falta de vontade de viver que essa pastora conheceu ainda criança aos seus 13 anos. E mesmo tendo sofrido tanto, desde tão nova, ela ainda encontrou forças para ajudar aqueles que precisavam. Sua fé e determinação fizeram com que aquela casa de apenas dois quartos não parasse de crescer. E logo a casa se transformou no Projeto Metamorfose, que visa a desintoxicação de seus abrigados, a melhoria na qualidade vida de vida de seus ex-dependentes químicos e a nova inserção destas pessoas na sociedade. Uma sociedade que, apesar de tamanha amargura, pode mostrar o seu lado bonito, construído por pessoas como a pastora Sônia.

 

Hoje, o Projeto Metamorfose possui duas sedes bem estruturadas em Goiânia e cuida de mais de 200 pessoas. Ao longo de seus 25 anos como educadora social em Goiânia, Sônia já ajudou mais de 10 mil moradores de rua e narcodependentes. Certa vez a pastora me mostrou um grupo de mendigos e disse: “Ali está um grande desafio, o desafio de dar o convívio da sociedade e dar uma verdadeira cidadania. Lembro uma vez o que ela me disse que encontrou um craque do Cruzeiro que estava perdido sem qualquer identidade, sem saber sequer quem era. Ela o recuperou e depois ele voltou para o Cruzeiro e o transformou novamente em um grande craque do Cruzeiro no futebol. Isso é o mundo da realidade, esse é o mundo real. Então, pastora Sônia, tendo o Poder Legislativo do Estado de Goiás tendo a deferência à sua pessoa, o carinho ao seu trabalho, tenha no nosso mandato todo o esforço e disposição que nós tivemos para ajudá-la. Continue com sua missão. Pessoas como você têm todo o apoio divino, o apoio de Deus, e têm que ter o apoio dos Poderes. O  Poder Legislativo está aqui hoje,para prestar essa homenagem e lhe dar o Título de Cidadã Goiana, por lei e por decreto. Tenha nas nossas palavras a certeza de que a sua vida, de onde você vem, tem um grande desafio, e o desafio que está estampado no semblante de todos esses aqui: vencer, vencer e vencer. Vitória, vitória, vitória.  Parabéns pela homenagem.

 

Muito obrigado.

 

 

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