José Cácio Júnior
Oprefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT), deve passar por uma constante prova de fogo até o começo da eleição municipal no ano que vem. Provável candidato, Paulo, que ainda é desconhecido por grande parte da população, precisa correr contra o tempo para imprimir sua marca e mostrar a que veio. Quase um ano após ter assumido o cargo, o petista precisa, além de colocar em prática seu modelo administrativo, agradar o próprio partido e o PMDB, outra forte legenda da aliança.
Dessa forma, a avaliação sobre o primeiro ano de Paulo como prefeito gera discussão entre os grupos políticos da oposição. Para os aliados, o petista tem feito uma boa gestão e já consegue imprimir sua marca na Prefeitura. Já a oposição acredita que quem ainda dá as cartas é o ex-prefeito Iris Rezende (PMDB), que entregou o cargo ano passado a Paulo para disputar o governo do Estado. Discursos óbvios, mas que já mapeiam como deve ser a disputa para o comando do Paço Municipal.
Da oposição, o suplente de senador Paulo de Jesus (PSDB) é quem analisa a gestão do prefeito de Goiânia sem levar em conta as divergências partidárias. Para o tucano, Paulo Garcia tem realizado intervenções pontuais no município enquanto define as ações que terão sua marca. O suplente do senador Cyro Miranda (PSDB) também acredita que Paulo Garcia quer realizar suas ações gradativamente na Prefeitura para ter o controle de toda a máquina administrativa.
Para isso, o prefeito tem que analisar o impacto político-administrativo de suas ações tanto no Paço Municipal quanto na reação dos integrantes do PT e do PMDB. “O prefeito está trabalhando os problemas com tranquilidade, como se estivesse pisando em ovos, pois precisa manter a aliança entre o PT e o PMDB. Por isso ele tem sido precavido e parcimonioso na questão administrativa”, avalia o suplente de senador.
A primeira mudança de Paulo Garcia na Prefeitura ocorreu com a implementação da reforma administrativa no Paço. Aos poucos, o petista vai acomodando seus parceiros políticos, já que o prefeito tinha concordado com a manutenção do pessoal ligado a Iris Rezende até o final do ano passado. O deputado estadual Luis Cesar Bueno (PT) admite que o prefeito dependia do resultado da eleição do ano passado para impor sua marca. Mas afirma que Paulo, ao mesmo tempo em que dá continuidade às ações de Iris que trazem benefícios ao município, vem implantando seu modelo de gestão.
Mobilidade
Luis Cesar aponta as alterações no trânsito da Capital como um dos primeiros movimentos que marcam a gestão de Paulo Garcia. Delimitação do corredor para transporte coletivo e as mudanças no fluxo de veículos na Praça do Cruzeiro, por exemplo, são citadas pelo deputado petista como positivas. “Ao mexer na trajetória do transporte coletivo, Paulo Garcia também tem melhorado a infraestrutura da cidade, já que melhora o fluxo de veículos em vários pontos da Capital”, afirma Luis Cesar, que acredita que os projetos da área ambiental, como a construção do parque Macambira-Anicuns, que ligará a área do Rio Meia Ponte a Aparecida de Goiânia, irá imprimir uma nova “cara” a Goiânia. O projeto do parque foi idealizado por Iris, que investiu maciçamente em construção de parques durante os seis anos que comandou a Capital.
Para o secretário estadual de Meio Ambiente, Leonardo Vilela (PSDB), falta pulso na administração do Paço. Ele critica as intervenções do prefeito no trânsito, alegando que são “polêmicas” e sem efeito algum. Leonardo Vilela cita a reforma do zoológico de Goiânia como exemplo. Na visão do secretário, a situação é “claudicante” e fácil de resolver, tendo em vista que se trata de uma área pequena, por ocupar poucos hectares e que acabou se tornando “interminável”.
O deputado estadual Mauro Rubem (PT) explica que o prefeito tem conciliado sua linha de trabalho desde quando era vice com a forma como o PT defende ações nas áreas de saúde, educação e assistência social — “as balizas pelas quais o partido milita”. Além disso, para Mauro, Paulo tem tido habilidade para conduzir a gestão do Paço e manter a unidade dos diversos grupos políticos que compõem a aliança PT-PMDB-PCdoB. Para o deputado, Paulo Garcia, quando tenta imprimir sua marca a um governo “que já estava em alta velocidade”, automaticamente se credencia para a sucessão do ano que vem.
Mauro Rubem também entende que as alterações realizadas no trânsito para melhorar o transporte coletivo na Capital foram feitas dentro do limite, já que melhoram alguns pontos, mas estrangulam outros. No entanto, ele cita que o núcleo do problema é outro. Segundo o deputado, os grupos privados que operam a concessão do transporte coletivo na Capital são “insuficientes, incapazes e não possuem competência para discutir as questões do trânsito”.
Sombra

Conhecido por suas críticas em relação à oposição, o deputado estadual Tulio Isac (PSDB) considera Paulo Garcia uma mera sombra de Iris Rezende. O tucano explica que toda alteração de gestor produz mudança significativa na administração. Para ele, é como se Íris ainda estivesse no comando do Paço. Túlio cita como referência o governador Marconi Perillo (PSDB) “que, com apenas um mês de governo, já está colocando tudo para funcionar”. Além de considerar o governo de Paulo Garcia como um “verdadeiro caos”, Tulio Isac não percebe nenhuma mudança significativa no transporte coletivo, saúde, educação e segurança da Capital.
“Acredito que as ações da prefeitura se resumem a duas situações: terminar o que o Iris começou e tocar as obras que já estavam planejadas”, critica o deputado tucano, afirmando que Paulo terá dificuldades para se reeleger no ano que vem caso mantenha a linha atual de administração.
Ex-prefeito de Goiânia por três mandatos, o presidente de honra do PSDB, Nion Albernaz, também sugere a Paulo Garcia a adoção da meritocracia para melhorar a prestação de serviços nas áreas de saúde e educação, otimizando a condição de trabalho e a remuneração dos profissionais. “Meritocracia é fundamental em qualquer gestão. Foi um dos métodos criados ultimamente que mais tem surtido efeitos positivos.”
Nion critica a formação do secretariado de Paulo Garcia. Na visão do tucano, o grupo foi formado com o interesse de realizar acomodações políticas. Ele cita a ligação de Paulo com Iris e o acordo que era mantido entre os dois políticos. Entretanto, o tucano sugere que o petista desvincule sua imagem de Iris para poder imprimir sua marca na Capital. “Paulo Garcia ainda não inovou em nada, copiou até o slogan de Iris.”
O distanciamento entre Paulo e Iris e a formação do novo secretariado são situações delicadas que o prefeito tem tratado com muita atenção. Visando aumentar a base e sua musculatura eleitoral para 2012, Paulo convidou políticos de outras legendas, como o ex-deputado estadual e candidato a vice-governador na chapa de Vanderlan Cardoso (PR) ao governo do Estado, Ernesto Roller (PP); e o ex-deputado federal e ex-presidente da Goiás Turismo Barbosa Neto, para ocuparem a Procuradoria-Geral do Município e Secretaria de Desenvolvimento Econômico, respectivamente.
Além de aumentar sua base de apoio, Paulo sabe que precisa atender às reivindicações do PMDB. Por isso a ligação tão próxima com Iris que, mesmo sem mandato, ainda consegue colocar a casa em ordem e acalmar os ânimos da bancada jovem do PMDB. Se dependesse de alguns deputados do partido, como Bruno Peixoto, Francisco Júnior, Wagner Guimarães e do secretário municipal de Governo, Iram Saraiva Júnior, o cabeça de chapa da coligação seria do PMDB.
Problema caseiro
Como se ainda tivesse poucos problemas políticos para resolver, Paulo Garcia ainda precisa atender aos interesses do PT. Que não são poucos, diga-se de passagem. Em conversas reservadas, petistas veem dificuldade na reeleição do prefeito, pois ele tem contemplando apenas pessoas mais próximas com os cargos de segundo escalão no Paço, esquecendo assim dos “carregadores de bandeira” do partido.
A falta de habilidade política nesse sentido pode inviabilizar até mesmo a eleição da bancada do partido na Câmara dos Vereadores. O PT não conta com a presença de um puxador de votos, como Iris Rezende. E mesmo que participe da campanha, o ex-prefeito de Goiânia deve manter certa distância do calor eleitoral.
Um pré-candidato a vereador do PT explica que muitos colegas do partido esperam a decisão de Paulo Garcia sobre as nomeações na Prefeitura para definir suas candidaturas. “O principal problema é a demora de Paulo. Precisamos montar toda estrutura de campanha, arrecadar recursos e quanto mais o prefeito demora a decidir pior fica para a eleição”, explica o petista, que acredita que o partido sairá menor do que está no próximo pleito.
“Reforma administrativa foi um erro”

Um dos principais nomes da oposição na Câmara dos Vereadores, Elias Vaz (PSol) acredita que o prefeito Paulo Garcia (PT) já iniciou seu mandato de forma equivocada. Elias compara a reforma administrativa realizada por Iris Rezende (PMDB) e pelo atual prefeito no início dos seus mandatos. O erro de Garcia, explica o vereador, foi ter aberto espaço para acomodações políticas na estrutura do Paço, ação que, segundo Elias, não foi tomada por Iris.
“Aquilo que o Iris conseguiu tirar de gordura da administração voltou agora. Politicamente, é cargo de gente que não faz nada", critica Elias, torcendo para que as modificações realizadas por Paulo Garcia deem certo.
Líder do prefeito na Câmara, o vereador Djalma Araújo (PT) minimiza as críticas feitas pela oposição. “Nem se a gente oferecer ouro em pó para a oposição resolve”, ironiza, dizendo que mesmo que estejam fazendo uma avaliação equivocada do prefeito, que tem feito, segundo Djalma, uma administração inovadora ao descentralizar o atendimento da Prefeitura. O vereador petista explica que uma das prioridades de Paulo Garcia é aumentar o número de vagas nas unidades do Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI), conciliando com investimentos na rede escolar de ensino e da rede hospitalar do município.
Cobrança

Para o vereador Fábio Tokarski (PCdoB), a cobrança da oposição por obras e investimentos que mudem o estilo da gestão é “imediatista”. Fábio explica que, antigamente, uma das principais reivindicações era por asfalto. Governar hoje, explica o comunista, é “levar em conta as diversas faces das demandas sociais da cidade”. Fábio acredita que o principal desafio de Paulo Garcia é humanizar a cidade e fazer com que o cidadão perceba que é um ator determinante e participativo da gestão administrativa da Capital.
Na visão de Tokarski, a “onda” de críticas pelo fato de Paulo não apresentar projetos de obras estruturais é “utopia”. “Não tem como continuar com o pensamento de antigamente. Hoje a realidade da população é outra. É utopia pensar que só precisa construir viaduto.”
Luiz Bittencourt evita comentar administração

Um dos dissidentes do PMDB durante a campanha eleitoral, o ex-deputado federal Luiz Bittencourt (PDMB) foi econômico ao comentar a administração de Paulo Garcia (PT) na Prefeitura de Goiânia. Bittencourt admite que seja visível a mudança de gestão entre o petista e o ex-prefeito Iris Rezende, mas evitou fazer maiores comentários sobre as alterações no Paço. “Considero Paulo Garcia um prefeito bem-intencionado, mas não posso me aprofundar no assunto, pois estive focado na campanha eleitoral.” O peemedebista foi um dos que liderou o apoio à campanha de Marconi Perillo (PSDB) dentro do seu partido.
Já o ex-prefeito de Senador Canedo Vanderlan Cardoso (PR) é só elogios a Paulo Garcia. Tida como certa sua filiação ao PMDB, Vanderlan afirma que pode perceber pelas poucas conversas que teve com o prefeito, que o petista possui bons projetos para Goiânia. Na opinião de Vanderlan, uma das maiores dificuldades que Paulo pode enfrentar é com a liberação de recursos do governo federal para oferecer serviços de qualidade à população.
“Muitas vezes não são obras que marcam uma administração. Mas sim um bom serviço na área de saúde, melhoria das escolhas, construção de praças na cidade. Principalmente ações para a população mais carente”, completa. Vanderlan também elogia a forma como o prefeito tem encontrado para resolver os problemas partidários da base aliada. Um dos avanços, diz ele, foi a abertura de espaço para que integrantes de outros partidos também participem da administração municipal. “O prefeito está mostrando que ações políticas também podem ser uma das marcas da sua gestão”.
Mudança

A avaliação de Bittencourt, que não quis entrar em detalhes sobre a gestão de Paulo Garcia, pode estar relacionada com a mudança de Vanderlan para o PMDB. Cotado para ser candidato a prefeito de Senador Canedo no ano que vem, Bittencourt pode tentar articular um amplo apoio político para a eleição na Grande Goiânia. Embora deva contar com o apoio de Marconi, que quer tirar o PT e PMDB do comando da Capital, o ainda peemedebista deve mudar para o PSB, partido do prefeito de Senador Canedo, Túlio Sérvio. Luiz Bittencourt ainda não mudou seu domicílio eleitoral para Senador Canedo, como tem sido especulado.
Túlio conta com o apoio de Vanderlan. Caso se forme uma chapa com Bittencourt, o apoio do ex-prefeito do município seria fundamental para a vitória na cidade. O ex-deputado federal também já elogiou publicamente a gestão de Vanderlan à frente de Senador Canedo. Embora nem a Justiça Eleitoral tenha entrado em consenso sobre uma possível candidatura na Capital, Vanderlan deve participar ativamente de todo o processo eleitoral para as prefeituras de Goiânia e Senador Canedo.