Petistas insistem que episódio é ficção
Publicado 28/10/2012
Após condenação do ex-tesoureiro Delúbio Soares e de figuras expressivas na história do partido como José Dirceu e José Genoíno, lideranças do PT mantêm a tese de que o mensalão não existiu. Desconfortáveis com o assunto, lideranças da sigla continuam defendendo a versão de que houve “repasses de recursos” para pagamento de despesas dos partidos da base que sustentava o então presidente Lula e cobram mudança na postura do Supremo Tribunal Federal (STF) em julgamentos de casos semelhantes.
A versão dos petistas para o caso analisado pelo STF na ação penal 470 é semelhante a sustentada pela defesa de réus como o próprio Delúbio, que defende a tese de que o escândalo apelidado de mensalão se resumiu, na verdade, à prática de caixa 2.
Ligando o tema diretamente às últimas quatro eleições, o partido também acredita que o resultado das eleições de 2012 mostra que o julgamento político foi feito ainda em 2006, quando Lula se reelegeu um ano após o escândalo ganhar as páginas dos jornais, e o PT já teria superado o caso diante dos eleitores e da militância (leia reportagem nesta página).
Apesar do discurso ser afinado, ele não é, no entanto, proferido com facilidade pelos correligionários. Um dos principais líderes do PT goiano, Osmar Magalhães disse à reportagem que não tem interesse em falar publicamente sobre o assunto. “Eu estou me recuperando de uma cirurgia, mas mesmo se não estivesse não falaria”, afirmou ele, depois de dizer que espera o término do julgamento para analisar o caso.
Posição semelhante tem o deputado federal Rubens Otoni, que, após insistência da reportagem, falou com o POPULAR. Para ele, também é necessário aguardar o fim do julgamento para uma avaliação mais apropriada a respeito do mensalão, mas já é possível fazer “uma análise mais geral”. “Esse julgamento vai mudar muita coisa, inclusive na postura do STF. A primeira postura que está mudando é justamente a do STF. Eu espero que eles (os ministros) mantenham a mesma rigidez ao analisar casos dos outros partidos”, disse.
De acordo com o parlamentar, “seria ridículo pensar que um deputado do PT recebesse para votar com o governo”. “Independente do que tenha havido não precisaria comprar os votos”, disse ele ao ser questionado sobre a participação de outros partidos. “Esse momento vai ser um grande aprendizado para toda a sociedade, não apenas para o PT. Acho que o judiciário tem uma grande responsabilidade daqui para frente e a sociedade deverá ficar vigilante com ele da mesma forma que está com os políticos”, completa.
Também deputada federal, Marina Sant’Anna (PT) diz que o processo tem sido “doloroso” para a sigla. “É muito difícil para nós como pessoas, militantes, a convivência com o fato de pessoas que são do PT estarem sendo julgadas desta forma. Conhecendo o trabalho (deles) e sabendo que não houve enriquecimento ilícito nós vemos a imagem sendo achincalhada. Antes de o PT já existir essas pessoas eram presos políticos, lutaram pelo país”, diz a parlamentar.
A parlamentar também defende que o esquema de pagamento sistemático para parlamentares votarem a favor de propostas do governo federal nunca existiu. “São duas opiniões diferentes sobre isso: a opinião predominante no Supremo e a das pessoas que estavam no Congresso Nacional naquela época. Eu não estava lá, mas eu não ouvi uma pessoa sequer que tenha dito, inclusive em conversas reservadas, informais, que houvesse coisas daquele tipo, que havia parlamentares recebendo dinheiro mensalmente para votar”, argumenta.
RECEIO
Presidente do PT em Goiânia, o deputado estadual Luis Cesar Bueno se diz preocupado com as “jurisprudências” definidas pelo Supremo com o julgamento do mensalão. “Existe um debate no mundo jurídico sobre as consequências da jurisprudência que está sendo formada. O STF terá de aplicar uma jurisprudência consolidada onde indícios e suposições passam a ser provas concretas, suficientes para condenar. Os juristas estão fazendo esse debate e estão apavorados com a situação”, argumenta ele.