A CRISE, O FASCISMO E AS CORPORAÇÕES
Publicado 02/10/2011
Eliezer Pacheco*
É unânime a concordância sobre o caráter estrutural da crise do capitalismo na etapa da financeirização. A falência do discurso neoliberal pela sua incapacidade de enfrentá-la deixou os setores dominantes sem uma perspectiva nos marcos da democracia liberal. Daí o preocupante crescimento do neofascismo em toda a Europa e nos EUA, com o Tea Party. De outro lado, a esquerda encontra-se confusa desde a crise de seus principais paradigmas políticos, passando o movimento social por séria crise de identidade. A ausência de projetos coletivos cede lugar aos projetos pessoais e, no limite, aos projetos de corporações específicas descolados de qualquer projeto nacional, o que os incapacita a perceber o caráter e a ameaça da atual crise. Esta tem levado a falência dos estados nacionais e a eliminação de todas as conquistas do Estado de bem estar social, pois, na hora de pagar a conta, a fatura sempre recai sobre os trabalhadores. Para isto, faz-se necessário o atropelo até de prerrogativas do Estado Democrático de Direito, como o ocorrido nos EUA após o 11 de setembro.
A outra saída historicamente utilizada pelo grande capital é a guerra, tanto pelo incentivo a indústria bélica, como pela distração ocasionada, coesionando a população em “defesa da pátria”. Neste aspecto, vemos claros sinais de um novo colonialismo na tentativa de dominar os grandes produtores de petróleo e suas rotas. Hoje é o mundo árabe e seus problemáticos governos, amanhã poderá ser o Brasil do pré-sal. Todas estas “saídas” apontam em direção ao populismo de direita e ao neofascismo. Enfim, o quadro político e econômico internacional é extremamente preocupante, sendo hoje a mais séria ameaça sobre a vigorosa caminhada do Brasil rumo ao desenvolvimento e à inclusão social,bem como os direitos dos trabalhadores.
Atolados no corporativismo, nossos sindicatos vinculados ao funcionalismo público, não conseguem ler a conjuntura e ver a relação entre a crise mundial e seus direitos. A grande ameaça aos mesmos não vem deste governo, que recuperou e ampliou as políticas públicas, mas sim de grave crise econômica e do crescimento da direita. Voltados para si próprio, não conseguem ter uma postura propositiva, sendo sempre contra as políticas públicas propostas por governos progressistas, o que os leva a uma posição reacionária, aproximando-os das posições direitistas e dos defensores do estado mínimo, históricos adversários do funcionalismo. É sintomático o fato de o CPERS Sindicato do RS, colocar-se contra uma reforma de previdência que busca viabilizá-la através dos setores do funcionalismo detentores de altos salários, não atingindo nenhum professor de sala de aula. Para isto, presta-se a massa de manobras e se alia a forças políticas historicamente hostis aos trabalhadores e antigos arautos do neoliberalismo. Na greve dos Institutos Federais, vimos setores do SINASEFE (PSTU) alimentando o Estadão e a Globo de “informações” que desqualificam a Rede Federal e sua expansão, além de profissionais que ingressam na Rede graças a expansão posicionando-se contra a mesma. Na verdade, observa-se hoje uma poderosa ofensiva contra a expansão do ensino público, articulada pela direita, através da grande imprensa, e operada pelos grupos de extrema esquerda. Exigir que, num país em apenas 3% de sua população chega ao ensino superior, um campus só fosse funcionar com todas as condições, é atitude elitista de quem não quer incluir milhões de jovens no sistema público. São os mesmos que já foram contra o PROUNI, o REUNI, O ENEM e os Institutos Federais. A retórica destes grupos é “esquerdista” mas a prática é reacionária, inclusive em seu udenismo redivivo que desqualifica a política e aos políticos, criando um caldo de cultura anti-democrático. Em três momentos de nossa história em que este tipo de campanha tomou vulto tivemos o suicídio de Vargas e as eleições de Jânio e Collor. A banalização da greve, não mais como último e principal instrumento de luta dos trabalhadores, mas como o primeiro, na verdade fragiliza a instituição pública e fortalece o discurso privatista. Isto tudo, com os salários continuando a serem pagos rigorosamente em dia. A direita brasileira, derrotada política e ideologicamente, vê na extrema esquerda o instrumento para desgastar e fragilizar o governo.
Pela falta de perspectiva histórica, ao colocar interesses corporativos acima de um projeto democrático, servem de escada para aqueles que desejam aniquilar direitos conquistados ao longo de muitas lutas. A direita, mais uma vez, agradece. Incapazes de olhar para o futuro, comprometem o passado e o presente.